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Renato Maurício Prado


O gordo Natal rubro-negro

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Imagem: Getty Images
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

02/12/2019 09h45

Quando eu era bem pequeno, as crianças mandavam cartinhas para Papai Noel, pedindo os presentes que sonhavam ganhar no Natal. A ilusão não durava muitos anos, é verdade, mas lembro-me ainda do dia em que escrevi, implorando ao bom velhinho que me trouxesse um autorama e meu avô Darcy (uma ótima pessoa, mas conhecido por ser "seguro", leia-se, um tanto quanto pão duro) reagiu de imediato — por cima de meu ombro, estava de olho no que eu rabiscava:

— Alemão (de vez em quando ele usava também o apelido que meu pai me dera), isso é muito caro! — questionou.

E eu, na inocência típica da infância, ainda retruquei, zangado:

— Mas o dinheiro não é seu, vovô! É do Papai Noel!

Bem, não ganhei o autorama naquele natal — só fui ter um, bem mais adiante, quando pude vender o lindo trem elétrico que papai trouxera da "América" e cuja locomotiva pifou após certo tempo de uso. O brinquedo era tão sofisticado (meu pai mal me deixava brincar sozinho com ele) que os trilhos, os inúmeros vagões, as estações, as belas paisagens, todo o resto, enfim, ainda valiam uma nota e foi assim que consegui comprar o meu primeiro autorama. Estrela, claro.

Lembrei-me dessa história ao imaginar o velho Noel recebendo uma carta singular na metade desse ano. Sentado diante de sua lareira, na Lapônia, surpreendeu-se com a antecedência e com o volume dos pedidos:

— Olhem só, que curioso — comentou com seus duendes, que logo se aproximaram para ouvir o que dizia a tal cartinha.

Cartinha, modo de dizer, na verdade eram várias folhas e muitos pedidos.

— Esse aqui quer dirigir um grande time no Brasil! O maior de todos, pede ele... — leu, divertido, o bom velhinho.

— Só isso? — repetiram, em coro irônico, os duendes.

— Não! Ele quer também ganhar os títulos mais importantes que disputar por lá!

— Kkkkkkkkkkkk. Só isso? — gargalharam as renas, que também se aproximaram, curiosas

— Não! Pede também para quebrar todos os recordes da história do campeonato.

— Kkkkkkkkkkkk. Só isso? — provocou o conjunto de elfos e caribus.

— Não! Faz questão também de derrotar categoricamente os últimos campeões e passar por cima de todos os medalhões de lá que cruzarem seu caminho.

— Mas que menino pidão! Kkkkkkkk. Só isso? — seguiu o jogral dos ajudantes.

— Ainda não! Quer que o seu time encante até os torcedores rivais, pelo futebol ofensivo, envolvente e avassalador.

— Kkkkkkk, era só o que faltava! De onde é esse guri? — perguntaram os duendes.

— Nem é um guri! — explicou Papai Noel.

— Mas, então, como tem a ousadia de escrever pra cá? — questionaram os duendes e as renas.

— É um senhor! Mas acredita na gente. E, quer saber, vai ganhar tudo o que está pedindo! — foi a resposta surpreendente do bom velhinho.

— Como assim, Nicolau? Por acaso, hoje é Black Friday? — perguntou a Mamãe Noel, que estava na cozinha e resolveu aparecer diante de tamanho alarido.

— Mulher, olha o nome de quem assina a carta! — respondeu o senhor barrigudo e de longas barbas longas.

— JESUS!!! — espantou-se a senhora.

— É tão grave assim? — quiseram saber duendes e renas, espantadíssimos com a reação de Mamãe Noel ao ler o nome do missivista.

À essa altura, o bom velhinho já largara a carta na mesa e procurava freneticamente alguma coisa em seu enorme baú de brinquedos.

— O que você quer, homem de Deus?

— Minhas chuteiras, mulher, onde estão minhas chuteiras?

— E por que você quer chuteiras? As botas não são mais confortáveis?

— Leia o último pedido, meu amor. O último pedido...

— Quer o Mundial também, JESUS!

— Aí não basta levar os presentes e as taças que posso colocar na árvore de Natal. Terei que entrar em campo e jogar também... E jogar muita bola, querida. Já ouviu falar em Mané, Firmino e Salah? Valha-me, Deus!

Renato Maurício Prado