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Renato Maurício Prado


Renato Maurício Prado: Seleção que não se ama, técnico que se odeia

Tite convoca seleção brasileira para os amistosos de outubro - Pedro Martins / MoWA Press
Tite convoca seleção brasileira para os amistosos de outubro Imagem: Pedro Martins / MoWA Press
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

23/09/2019 12h00

Na última pesquisa do Datafolha sobre o tamanho das torcidas no Brasil, soube-se que apenas dois por cento dos entrevistados interessavam-se pela seleção brasileira. Natural para uma equipe que pagou micos dos mais variados nas últimas cinco Copas (o maior deles o inesquecível 7 a 1, diante da Alemanha, no Mineirão) e que, hoje em dia, tem como craque maior um jogador talentosíssimo, mas antipático no mundo inteiro, e um treinador metido a messiânico e demagogo que, além de não conseguir mais fazer o time jogar, parece ter prazer especial em estragar o campeonato brasileiro, desfalcando os times em nome de amistosos pífios, como estes próximos, contra Senegal e Nigéria (!!!), na longínqua Singapura.

É óbvio e cristalino que Tite não precisava, nem deveria ter convocado jogadores que atuam no Brasil para esses caça-níqueis mequetrefes. Há pé de obra suficiente no exterior, de onde, aliás, fatalmente, virão quase todos os convocados quando as partidas forem para valer. Por que, então, a atitude mesquinha, pequena e repugnante agora?

Na última convocação, quando levou Bruno Henrique, do Flamengo, Jorge, do Santos, Fagner, do Corinthians, Weverton, do Palmeiras e Ivan, da Ponte Preta, ele praticamente não os utilizou. O argumento de que, mesmo sem jogar, é importante observá-los nos treinamentos é uma falácia. Jorge, do Santos, e Samir, da Udinese, por exemplo, nem sequer entraram no empate com a Colômbia e na derrota para o Peru. E não foram chamados agora! Por que? Decepcionaram no café da manhã? Piada.

Para amistosos nas mesmíssimas datas Fifa, a Argentina abriu mão dos jogadores do Boca Junior e River Plate, justamente, porque eles disputarão uma das semifinais da Libertadores (o primeiro jogo é antes dos amistosos e, no nosso caso, da extenuante viagem a Singapura, o segundo, depois). O que fez o nosso "Gardelón"? Convocou logo dois do Grêmio (Matheus Henrique e Everton Cebolinha) e dois do Flamengo (Rodrigo Caio e Gabigol). Simplesmente inaceitável.

Uma boa corrente da imprensa ainda perdoa o treinador, alegando que ele está fazendo o que tem que ser feito, e os próprios clubes são responsáveis pelo problema, por terem assinado o regulamento da competição, antes de seu início. Nada mais falso. A menos que se revoltem e criem uma liga independente (algo que já deveria ter sido feito há anos), eles não têm poder de barganha algum. Os colégios eleitorais da CBF são feitos para que Federações e a própria Confederação se perpetuem no poder. Nem que todos os clubes votem juntos terão como mudar algo - o voto das federações tem peso 3 e os dos clubes da primeira divisão (em menor número), dois. Não há saída sem um rompimento total.

Em entrevista ao programa Bola da Vez, da ESPN Brasil, Tite reconheceu, candidamente, no final do ano passado, que interferiu, em termos técnicos, na reta final do Campeonato Brasileiro, ao convocar Lucas Paquetá, do Flamengo, e nenhum jogador do Palmeiras (os dois clubes disputavam palmo a palmo o título e os paulistas acabaram campeões). As desculpas esfarrapadas que deu não convenceram ninguém.

Agora, ele volta a prejudicar o Flamengo (do Palmeiras, convocou apenas o goleiro e do Corinthians, ninguém) e ainda tem a cara de pau de dizer que coloca a cabeça no travesseiro e dorme em paz. Pode até ser. Mas duvido que não sinta vergonha de si mesmo ao acordar e se olhar no espelho.

Como, aliás, terá se sentido depois de ser signatário de um documento contra a CBF e seus desmandos e, convidado para substituir Dunga, mandou às favas os princípios e assumiu o cargo dando beijos no rosto do então presidente Marco Polo Del Nero, que pouco depois viria a ser banido do futebol por corrupção?

Tite apodreceu na CBF e no cargo de técnico da seleção. E, por isso, é odiado, hoje em dia, pela maior parte da torcida. E não há título de Copa América capaz de reverter tal quadro.

A terceira parte

É curioso que ninguém fale num terceiro personagem diretamente ligado aos problemas de calendário e de jogos do Brasileiro durante as datas Fifa. Há anos, a Rede Globo de Televisão é uma das responsáveis diretas pelo fato dos nossos campeonatos não pararem quando a seleção faz amistosos. Esses jogos são, normalmente, em horários que não se encaixam nas tradicionais quartas-feiras à noite e domingos à tarde, quando a TV tem vendidas todas as suas cotas milionárias e não pode abrir mão de nenhuma dessas datas.

No ano que vem, como as eliminatórias serão disputadas nesses horários, o campeonato vai parar. Mas durante a próxima Copa América (agora, todo ano tem uma?) não haverá paralisação, pois os horários nem sempre combinarão.

Ou seja, o Brasileiro do ano que vem será uma zorra ainda pior.

Purgante

Existe coisa mais insuportável do que as entrevistas do Tite e seus inúmeros assessores?

Renato Maurício Prado