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Renato Mauricio Prado: Jesus multiplica meias e prega volantes na cruz

Jorge Jesus vibra Internacional Flamengo - Diego Vara/Reuters
Jorge Jesus vibra Internacional Flamengo Imagem: Diego Vara/Reuters
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

02/09/2019 04h00

Tanto o Internacional de Odair Hellmann quanto o Palmeiras de Luiz Felipe Scolari enfrentaram o Flamengo de Jorge Jesus com três volantes no meio-campo. E não o fizeram apenas por precaução, diante da reconhecida habilidade dos jogadores rubro-negros do setor, mas, acima de tudo, por convicção em suas estratégias e maneiras bem semelhantes de ver o futebol. Os dois pensam, antes de mais nada, em não levar gols, para depois, se possível, marcá-los. Ambos quebraram a cara. Os gaúchos foram eliminados da Taça Libertadores, em pleno Beira-Rio, e os paulistas levaram um baile, pelo Brasileiro, no Maracanã.

Está aí um ponto mais do que saudável na vinda dos dois Jorges, que vieram do exterior e lideram o campeonato mais importante do país: Jesus e Sampaoli. Eles preferem meias a volantes. E o ataque à retranca. Palmas para eles.

Falando mais especificamente do técnico português, o que ele vem conseguindo no Flamengo é uma bela metamorfose, quase um milagre, em relação aos seus antecessores.

Passou a ter, é verdade, um elenco estelar nas mãos - bem mais qualificado do que o de seu xará, da Vila Belmiro. Mas o estilo corajoso e cada vez mais eficiente de seu time remete, sem exageros, ao que se vê de melhor no futebol europeu: compactação quase permanente, marcação no campo do adversário, na maior parte do tempo, e alta rotatividade de seus jogadores, sobremaneira os armadores e atacantes.

Por isso, os volantes de Hellmann e, principalmente, os de Felipão, ficaram tontos diante da multiplicação dos meias de Jesus e, incapazes de evitar os gols do Fla, acabaram pregados na cruz de suas retrancas.

Muito se tem falado na estonteante capacidade de balançar as redes do trio Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta. Os elogios são justos. Mas além deles (e, naturalmente, de Éverton Ribeiro), Jesus passou a ter três grandes jogadores que caíram como luvas no seu esquema: os laterais Rafinha e Filipe Luís (Hosana, nas alturas, enfim, a diretoria se convenceu de Pará, Rodinei, Renê e Trauco não serviam!) e o baita coringa Gerson - como está jogando o ex-tricolor!

Sob o comando do português, até William Arão, antes tão contestado pela torcida, mudou da água para o vinho e hoje é capaz de dialogar, quase de igual para igual, com os vários talentos que o cercam no meio-campo e no ataque. Em suma: o recado que Jesus deixa cada vez mais claro é que para derrotá-lo não basta reforçar a marcação e ficar esperando um golzinho em contra-ataque. É preciso jogar bola de verdade.

Nos primeiros compromissos de Jesus à frente do Flamengo, muito se criticou seu estilo ofensivo, por conta dos gols que a equipe andou sofrendo, jogo após jogo, por atuar praticamente o tempo todo no campo rival, deixando a zaga desprotegida. À medida que as partidas foram se sucedendo, e os jogadores entendendo melhor o que o treinador queria, tais falhas foram rareando.

Tanto contra o Inter, nos dois jogos da Libertadores, quanto diante do Palmeiras ontem, a única vez em que Diego Alves acabou vencido foi numa cabeçada, após falta, durante forte pressão do adversário - pressão que, mais tarde, acabaria por abrir o espaço para o contra-ataque fatal que empataria o jogo e carimbaria a vaga rubro-negra.

Em sua entrevista pós-vitória sobre o Palmeiras, Jorge Jesus lembrou, com consciência, que ainda falta aperfeiçoar muita coisa na sua equipe: a bola área defensiva, por exemplo (um dos gols anulados dos paulistas nasceu assim). Mas é incrível como já conseguiu fazer com que alguns de seus mais talentosos jogadores (casos de Arrascaeta, Bruno Henrique e Éverton Ribeiro) passassem a participar ativamente do trabalho de marcação, quando o time perde a bola, dificultando as ações ofensivas rivais e facilitando os seus próprios contra-ataques - vide o desarme de Arrascaeta, contra o Inter, e o passe imediato e preciso para a arrancada de Bruno Henrique e o gol decisivo de Gabriel.

O Flamengo de Jorge Jesus e o Santos de Jorge Sampaoli (ambos cinco pontos à frente do Corinthians, novo terceiro colocado) ainda têm uma rodada pela frente (respectivamente, contra o Avaí e o Athletico), mas o duelo entre eles já pinta como final antecipada do primeiro turno e um jogo que promete fortes emoções, diante da ousadia de seus muito bem-vindos treinadores. Está aí um jogo com cara de 5 a 4, 4 a 3 ou, no mínimo, 3 a 2. Futebol ofensivo não vai faltar. E é disso que a maior parte da torcida gosta.

Dá pra reverter?

Em tempo: será que Scolari ainda é capaz de reverter essa assustadora virada de fio do Palmeiras? Visto, por muita gente, como virtual campeão, após nove rodadas, o Verdão despencou para a quinta colocação na tabela, sem vencer nem sequer uma vez após a paralisação para a Copa América. Se não derrotar o Goiás, na próxima rodada, será difícil o presidente Maurício Galiotte cumprir a promessa de manter seu técnico no cargo.

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