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Coluna

Renato Maurício Prado


A inebriante volúpia ofensiva de Jesus

Técnico Jorge Jesus reage durante jogo do Flamengo contra o Goiás - Thiago Ribeiro/AGIF
Técnico Jorge Jesus reage durante jogo do Flamengo contra o Goiás Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

15/07/2019 04h00

É cedo para dizer se Jorge Jesus dará certo no Flamengo. Mas é inegável que sua estreia no Maracanã superou as expectativas mais otimistas. Na goleada obtida num estádio praticamente lotado, o elástico placar de 6 a 1, sobre o Goiás, nem foi o que mais me impressionou, mas, sim, a inebriante volúpia ofensiva do rubro-negro, buscando sem parar o gol adversário, inclusive, nos últimos minutos de uma partida decidida, já no final do primeiro tempo, quando marcou três vezes em seis minutos e foi para o intervalo ganhando por 4 a 1.

Ao escalar, juntos, Diego, Everton Ribeiro, Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol, o técnico português dá mostras de como, ao contrário de seu antecessor, Abel Braga, tem o maior foco no ataque; na preocupação em fazer o maior número possível de gols, em vez de privilegiar a defesa e entrar em campo pensando, antes de mais nada, em "fechar a casinha". Um avanço e tanto, não há a menor dúvida.

Mas se, por um lado, esse quinteto talentoso, do meio pra frente, garante um toque de bola vistoso e eficiente no ataque, por outro, o preço a pagar é uma defesa bem mais exposta e, portanto, mais vulnerável - nessa formação, há apenas um volante, que ainda tem de se desdobrar na cobertura dos laterais.

A solução encontrada por Jesus passa, claramente, pela compactação do time e o avanço da linha de zagueiros para a intermediária, jogando numa tática de deixar os atacantes adversários impedidos e, principalmente, longe do gol rubro-negro. Funciona, quando não há falhas - como a de Rodrigo Caio, no gol marcado por Kaíque.

Jesus sabe disso e abordou o tema com clareza na entrevista coletiva, ao dizer que "defender com muita gente é mais fácil", mas prefere fazê-lo com menos jogadores e mais disciplina. Palmas para ele. Será preciso, entretanto, ensaiar muito bem o novo estilo pois, o primeiro tempo do jogo contra o Atlético Paranaense, na Arena da Baixada, foi caótico e ataques mais fortes que o do Goiás, como os de Palmeiras, Santos, Internacional etc., podem causar danos bem maiores à zaga do Fla.

O treinador, entretanto, demonstra uma saudável e elogiável coragem que remete aos bons tempos do nosso futebol, quando os timaços históricos de Santos, Cruzeiro, Botafogo, o próprio Flamengo e tantos outros venciam por placares como 4 a 2, 5 a 3 e por aí vai.

Curioso notar que, nos dias de hoje, o técnico brasileiro mais vitorioso, Luiz Felipe Scolari, reza em cartilha diametralmente oposta, que vai empilhando títulos por aqui - que o digam Carille, Mano e outros, seguidores da mesma escola.

Ora vejam só, cabe, então, a dois estrangeiros, o argentino Sampaoli, no Santos, e o português Jesus, no Flamengo, resgatar o nosso velho estilo, que inspirou ninguém menos que o melhor treinador em atividade, o catalão Pep Guardiola.

O duelo entre essas formas tão distintas de armar uma equipe promete ser interessantíssimo e enriquecedor, até porque o Palmeiras, de Scolari, lidera o Brasileiro, seguido, exatamente, pelo Santos de Sampaoli e o Flamengo de Jorge Jesus.

Fichas na mesa, que vença o melhor. O futebol brasileiro só tem a ganhar com tal diversidade.

Renato Maurício Prado