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Renato Maurício Prado


O Carioquinha é uma vergonha

Confusão marcou decisão da Taça Guanabara - ANDRÉ FABIANO/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO
Confusão marcou decisão da Taça Guanabara Imagem: ANDRÉ FABIANO/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO
Renato Mauricio Prado

Renato Mauricio Prado é jornalista e trabalhou no Globo, Placar, Extra, Rádio Globo, CBN, Rede Globo, SporTV e Fox Sports. Assina atualmente uma coluna diária no Jornal do Brasil. A primeira Copa que cobriu in loco foi a da Argentina, em 1978.

18/02/2019 04h00

O Campeonato Estadual do Rio já teve a fórmula mais inteligente do país (dois turnos, com direito a decisões de duas taças e final entre os campeões delas), já foi considerado o mais charmoso do nosso futebol e já coloriu e encheu os estádios do estado. Hoje em dia, só enche o saco dos torcedores.

Tem um dos mais confusos formatos do Brasil (um time pode vencer a Taça Guanabara e a Taça Rio e ainda assim precisará de um jogo-extra para garantir o título), vive imerso em politicagem da Federação e dos presidentes de clubes e os gramados nos quais é disputado são indignos até de pastos de bovinos e caprinos. Nem o do Maracanã escapa.

Apesar disso, quando se acha que o carioquinha do Rubinho (Rubens Lopes, presidente da Ferj) não tem mais como piorar, ele se supera e nos surpreende. Negativamente, óbvio! O que houve na decisão da Taça Guanabara, entre Vasco e Fluminense, é prova disso.

Por conta de uma ridícula disputa de lugar na arquibancada (o objeto de desejo é o setor sul do Maraca), a Federação e os presidentes Pedro Abad, do Flu, e Alexandre Campello, do Vasco, se meteram numa camisa de sete varas que acabou na Justiça, fazendo com que a primeira meia-hora da final fosse disputada com os portões fechados. Os torcedores, do lado de fora, tentavam entrar à força e apanhavam da polícia que, como de hábito, distribuiu borrachadas, gás de pimenta e bombas de efeito moral. Um caos. A cara (triste) do futebol praticado nos dias de hoje na outrora Cidade Maravilhosa.

Não custa lembrar que, durante 62 anos, os torcedores do Fluminense ocuparam o lado esquerdo da tribuna de honra do estádio (atualmente, chamado de setor norte). De lá, só saía em dia de Fla-Flu - e nunca reclamou disso. Desde a fundação do estádio, lugares fixos, só tinham mesmo as duas maiores torcidas: a do Flamengo, à esquerda, e a do Vasco, à direita. A rubro-negra ganhou esse direito graças a um concurso da época, patrocinado pelo Jornal dos Sports e a cruz-maltina por ter sido o primeiro campeão estadual do novo estádio (em 1950).

Após a criminosa privatização promovida pelo então governador e atualmente presidiário Sérgio Cabral, o consórcio liderado por ninguém menos que a corrupta Odebrecht, assinou contratos com a dupla Fla-Flu. E no compromisso firmado com o tricolor, na época presidido por Peter Siemsen, garantiu ao tricolor o setor sul (à direita da tribuna de honra). Uma decisão controvertida e que sempre causou confusão. A troco de que, pergunto?

Se o governador Wilson Witzel tivesse cumprido uma de suas promessas de campanha e rescindido o contrato com a Odebrecht, tudo isso teria acabado. Mas, como todo político, uma coisa é que o promete, em busca de votos, outra, a que faz, no poder - e ele já se entendeu com o consórcio...

Por contrato, portanto, o Fluminense teria o direito de ocupar o setor sul (cá, entre nós, que diferença isso faz?). Teria porque está inadimplente com o consórcio e, portanto, pode ver até o seu compromisso atual cancelado. E o Vasco, que sonha fazer uma grande reforma de modernização em São Januário (que ficaria cerca de dois anos em obras), está só de olho.

Pobre futebol carioca, nas mãos de gente como Abad, Campello e Rubinho. O medonho espetáculo visto na final da Taça Guanabara é a cara deles.
Em tempo: teve bola rolando e, num jogo tecnicamente fraquíssimo, o Vasco derrotou o Fluminense por 1 a 0, conquistando a sétima vitória em sete jogos e levantando o caneco, com justiça. 

Que venha a Taça Rio e, com ela, certamente, novas confusões e trapalhadas. Nossos cartolas sempre são capazes de piorar mais um pouco um campeonato desmoralizado há anos.

Renato Maurício Prado