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Rafael Reis

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Grosseria? Entenda por que o gol contra virou o "artilheiro" da Eurocopa

Gol contra marcado pelo suíço Zakaria foi o décimo desta Eurocopa - KIRILL KUDRYAVTSEV/AFP
Gol contra marcado pelo suíço Zakaria foi o décimo desta Eurocopa Imagem: KIRILL KUDRYAVTSEV/AFP
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

04/07/2021 04h00

Nada de Cristiano Ronaldo, Kylian Mbappé, Karim Benzema, Romelu Lukaku, Patrick Schick ou qualquer outro atacante consagrado no cenário internacional. O artilheiro desta Eurocopa é o gol contra.

Das 135 bolas que balançaram as redes da competição continental até o momento, nada menos que dez foram empurradas para lá por jogadores que estavam posicionados para tentar evitar o gol.

Essa já é, com muita folga, a edição da Euro com mais gols contra nos 60 anos de história do torneio. O recorde anterior, de três tentos, que havia sido estabelecido na França-2016, foi derrubado já na segunda rodada da fase de grupos.

A situação tem sido ironizada nas redes sociais. Para alguns torcedores, o excesso de gols na própria meta seria um indício de que o campeonato que reúne as seleções mais poderosas do Velho Continente não tem um nível técnico tão alto assim.

Mas existem explicações muito mais corretas e precisas para explicar esse fenômeno.

O primeiro é que houve uma mudança radical nos critérios de arbitragem. Até pouco tempo atrás, os juízes eram orientados a evitar a marcação de gols contra e só creditar o tento ao defensor em situações em que era realmente impossível premiar algum jogador da equipe que estava no ataque.

Agora, a situação é diferente. Os árbitros da Euro têm considerado gol contra todas as vezes que a bola sofre um desvio radical de trajetória que acaba sendo essencial para que ela encontre o caminho das redes.

Pela orientação antiga, um gol como o marcado pela Espanha nas quartas de final contra a Croácia, na sexta-feira, seria creditado a Jordi Alba, que finalizou na direção da meta. Só que o inglês Michael Oliver, juiz da partida, considerou que o gol não teria acontecido se a bola não tivesse batido em Denis Zakaria no caminho. Por isso, gol contra.

Só que o festival de gols contra visto na Euro não é apenas uma questão de critério de arbitragem. As características táticas do futebol apresentado pela elite da bola nos tempos atuais também colaboram com esse recorde.

O jogo contemporâneo é marcado pela intensidade física e pelos ataques e defesas em bloco. Foi-se o tempo em que um time defendia apenas com seis jogadores (os quatro defensores e os dois volantes). Hoje, nos momentos em que uma equipe está posicionada em bloco baixo, é comum ver todos os dez atletas posicionados dentro ou nos arredores da área protegida.

Aí é uma questão de pura física. Se há mais gente ocupando o mesmo espaço, maior é a chance de qualquer tentativa de finalização acabe acertando as pernas de alguém pelo caminho. E esses desvios costumam ser letais, propiciando um aumento expressivo nos tentos contra a própria meta.

Isso já estava acontecendo três anos atrás, no Mundial da Rússia. A Copa-2018 foi a com maior número de gols contra em todos os tempos: 12. O torneio do Velho Continente só está seguindo essa tendência.

As semifinais da Eurocopa começam depois de amanhã. Na terça-feira, a Itália, única seleção ainda com 100% de aproveitamento na competição, enfrenta a Espanha. Um dia depois, será a vez do confronto entre Dinamarca e Inglaterra.

As duas partidas serão disputadas em Wembley. O estádio de Londres receberá também a decisão continental, agendada para o próximo domingo, a partir das 16h (de Brasília).

Originalmente, da Euro era para ter sido disputado no meio do ano passado. No entanto, a pandemia da covid-19 fez com que ele fosse adiado em 12 meses.

A novidade desta edição é que não há uma sede fixa. Para comemorar os 60 anos do continental, a Uefa decidiu realizar a competição em 11 cidades espalhadas por 11 países diferentes (alguns que nem classificaram suas seleções).

Além da Inglaterra, sede de toda a reta final, a Euro-2020 (sim, ela manteve esse nome mesmo com o adiamento da data) também passou por Itália, Azerbaijão, Dinamarca, Alemanha, Escócia, Espanha, Hungria, Holanda, Romênia e Rússia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL