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Rafael Reis

REPORTAGEM

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Ex-Barça fez "bico" de espião e entregou companheiros para comunistas

Gheorghe Popescu, ao lado de Luis Enrique, quando ambos jogavam pelo Barcelona - Divulgação
Gheorghe Popescu, ao lado de Luis Enrique, quando ambos jogavam pelo Barcelona Imagem: Divulgação
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

04/04/2021 04h20

Gheorghe Popescu é um dos maiores nomes da história do futebol da Romênia. Entre 1988 e 2003, disputou 115 partidas pela seleção e esteve em três edições da Copa do Mundo (1990, 1994 e 1998). O ex-zagueiro e volante foi companheiro de Ronaldo Fenômeno no Barcelona e também defendeu Tottenham, PSV Eindhoven e Galatasaray.

Mas a carreira cheia de feitos importantes dentro de campo e com títulos nacionais conquistados em quatro países não era a única atividade que ele exercia durante a juventude. Durante parte do tempo em que jogou futebol, Popescu também atuou como espião a serviço do governo romeno.

De 1986 a 1989, período em que defendeu o Universitatea Craiova, seu primeiro time profissional, Gica (apelido pelo qual era conhecido) trabalhou como informante da ditadura comunista de Nicolae Ceausescu.

Seu papel era relatar ao governo tudo que seus companheiros costumavam conversar sobre o regime e denunciar qualquer atividade suspeita dos jogadores, especialmente durante viagens ao exterior para disputa de competições internacionais.

Na prática, a missão principal de Popescu era ser os olhos e ouvidos da ditadura para impedir que atletas do Universitatea aproveitassem jogos de Liga dos Campeões, Copa da Uefa (hoje Liga Europa) e Recopa Europeia para fugir da Romênia e pedir asilo em algum outro país.

Vale lembrar que, durante o período em que Ceausescu esteve no poder, atletas romenos eram proibidos de se transferir para times de outros países. Afinal, o governo costumava usar o futebol como instrumento de propaganda do regime e conseguiu até construir um vencedor de Champions, o Steaua Bucareste, campeão em 1986.

Um dos integrantes daquele time, o ex-zagueiro Miodrag Belodedici, chegou a ser condenado a dez anos de prisão e perdeu a chance de disputar a Copa-1990 porque fugiu para a Iugoslávia... e olha que a nação escolhida pelo defensor nem era um "inimigo capitalista" e também fazia parte do bloco socialista da Europa.

Em 2009, quando o passado como espião de Popescu veio à tona, o ex-jogador do Barcelona inicialmente negou que tivesse trabalhado para Ceausescu. Pouco depois, no entanto, admitiu que tinha um acordo com a polícia secreta romena e que havia se comprometido em "defender os interesses nacionais" do seu país.

O antigo astro da seleção confessou que produziu quatro relatórios sobre o comportamento dos seus companheiros de time. No entanto, ressaltou que nenhum deles chegou a ter problemas com o governo devido às informações que ele relatou.

A ligação entre o jogador e o governo romeno terminou em 1989, quando uma revolução encerrou os 24 anos de liderança de Ceausescu no país, levou à morte do ditador, que foi executado por um pelotão de fuzilamento, e restaurou a democracia na Romênia.

Em 2014, cinco anos depois das revelações sobre seu passado espião, o nome de Popescu voltou à tona devido a denúncias de participação em um esquema de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal em compras e vendas de jogadores.

O ex-defensor, que atuava como empresário de atletas na época, foi condenado a três anos e um mês de prisão pelas irregularidades no Mercado da Bola. Aos 53 anos, ele hoje ocupa a presidência do FC Viitorul, time de meio de tabela do Campeonato Romeno.