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Rafael Reis


Por que a China, berço da Covid, ainda não tem data para retomar futebol?

Paulinho, do Guangzhou Evergrande, é um dos destaques do Campeonato Chinês - AFP
Paulinho, do Guangzhou Evergrande, é um dos destaques do Campeonato Chinês Imagem: AFP
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

22/06/2020 04h00

A bola já está rolando novamente em praticamente toda a Europa. Vários países da Ásia e alguns da América Central também retomaram suas competições. E até o Brasil, um dos epicentros da pandemia neste momento, já teve uma partida disputada na semana passada.

Mas a China, onde o novo coronavírus (Covid-19) foi identificado pela primeira vez e de onde se espalhou para todos os cantos do mundo, ainda não sabe quando suas competições de futebol serão reiniciadas.

E já há até quem defenda que a modalidade deve ficar paralisada até o fim do ano e só retornar na temporada 2021.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a China já teve 85 mil casos da doença e registrou cerca de 4.600 mortos. Na última semana, o país teve uma média de 35 novos infectados por dia.

Os números são bem melhores do que os do auge da pandemia por lá (no começo de fevereiro, havia cerca de 3 mil contaminações diárias). Mas, na avaliação de quem manda no futebol chinês, ainda não são suficientemente seguros para permitir o retorno dos campeonatos.

"Os países europeus decidiram retomar [o futebol] porque acreditam que, mesmo que a situação envolvendo o coronavírus sofra alterações diárias, é possível recomeçar com os jogos caso o número de novos casos esteja sob controle e o sistema médico esteja funcionando bem", afirmou o médico Zhang Wenhong, que tem trabalhado como consultor para a CFA (Federação Chinesa de Futebol), em entrevista à rede de TV CGTN.

"Na China, porém, nosso objetivo é manter o número de contaminações próximo do zero. Por isso, estamos adotando um comportamento mais prudente e ainda precisamos de mais tempo", explicou.

Inicialmente, o início da temporada da Superliga Chinesa estava programado para o dia 22 de fevereiro. Depois, o pontapé inicial da competição foi adiado para abril, maio, junho... E, até duas semanas atrás, era quase consenso no país que o futebol provavelmente seria retomado em meados de julho.

Mas um novo surto da Covid-19 na capital Pequim bagunçou esse planejamento. A cidade precisou colocar 30 bairros em quarentena, fechou alguns mercados e mandou alunos dos ensinos fundamental e médio novamente para casa.

Outras ondas semelhantes de rápida proliferação do vírus já haviam sido registradas em outras regiões do país nos meses posteriores ao ápice da pandemia. Mas todas foram contidas.

"O cronograma [do retorno] ainda está em discussão porque a doença reapareceu em Pequim. Estamos preocupados com a situação. O potencial de novas transmissões torna a volta ainda mais complicada", completou Wenhong.

Com tantas incertezas, as vozes que defendem que a atual temporada seja simplesmente cancelada estão cada vez mais fortes.

Afinal, a administração da liga chinesa já afirmou que não quer que o calendário de 2020 invada o próximo ano. Além disso, a competição precisará ser paralisada duas vezes (em outubro e novembro) devido a compromissos da seleção pelas eliminatórias da Copa do Mundo-2022.

Nesse cenário, a menos que o campeonato realmente recomece em julho, não haveria datas suficientes para que ele seja finalizado até dezembro, mesmo com uma mudança de formato que diminua consideravelmente o número de jogos a serem disputados por cada equipe.

O Guangzhou Evergrande, dos brasileiros Paulinho, Talisca, Fernandinho, Ricardo Goulart, Elkeson e Aloísio (os últimos quatro, naturalizados chineses), é o atual campeão nacional. O clube também venceu oito das últimas nove edições da competição.

De acordo com dados da OMS, a Covid-19 já havia contaminado até ontem mais de 8,5 milhões de pessoas em todo o planeta e provocado ao menos 456 mil mortes. O Brasil é só o segundo país que mais registrou casos da doença e óbitos.

Rafael Reis