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Rafael Reis


Quem é o príncipe acusado de assassinato que quer fazer o Newcastle bombar?

Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro do trono da Arábia Saudita - U.S. Department of State
Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro do trono da Arábia Saudita Imagem: U.S. Department of State
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

09/05/2020 04h00

Classificação e Jogos

Philippe Coutinho, Edinson Cavani, Gareth Bale, Antoine Griezmann, Kalidou Koulibaly e Arturo Vidal. Esses são só alguns dos jogadores que o Newcastle, campeão inglês pela última vez em 1927 e 13º colocado na atual edição da Premier League, pretende contratar para a próxima temporada.

A montagem de um elenco tão estrelado quanto esse só faz sentido porque os Magpies esperam se tornar em breve o clube de futebol mais rico do planeta.

O Newcastle está prestes a ser comprado por um fundo de investimentos liderado por Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro da Arábia Saudita e de uma fortuna familiar que, em 2018, estava estimada em US$ 1,4 trilhão (R$ 8,1 trilhões).

O negócio já é dado como certo há algumas semanas. De acordo com o jornal inglês "Daily Star", o contrato foi assinado, e a transação deve ser anunciada oficialmente na próxima semana.

Mas Bin Salman não é apenas mais um magnata do "mundo árabe" que resolveu investir em um clube europeu. Ele é também é uma peça-chave da geopolítica global e um dos principais alvos dos ativistas dos direitos humanos na atualidade.

Filho do rei Salman bin Abdulaziz Al Saud, que sofre de Alzheimer, MBS é na prática quem comanda a Arábia Saudita, uma das poucas aliadas dos Estados Unidos no Oriente Médio, região onde o ódio aos norte-americanos beira a unanimidade.

Sua gestão é vista dentro do país como "modernizadora", já que ele derrubou a proibição de mulheres dirigem automóveis e também permitiu que elas passassem a frequentar as arquibancadas de eventos esportivos. Mas esse é apenas um lado da moeda.

A Arábia Saudita continua sendo uma nação com alto nível de desigualdade de gênero. Um exemplo disso é que as mulheres só podem se casar, tirar passaporte ou ingressar em universidades se tiverem aval do homem chefe de sua família.

Além disso, MBS também tem caçado vozes contrárias ao regime. Imprensa independente é algo que não existe por lá. Muitas vezes, os sauditas que vivem no exterior e "falam demais" são convocados a retornar para casa e podem ter seus familiares presos.

O príncipe herdeiro árabe também é tratado por muita gente como um criminoso de guerra por sua intervenção arrasadora na Guerra Civil do Iêmen, que acontece desde 2015 e já matou mais de 100 mil pessoas.

Mas a mancha mais conhecida no seu currículo está ligada à morte do jornalista Jamal Khashoggi, que era um crítico feroz do seu governo e colunista do norte-americano "Washington Post". Em 2018, o repórter foi esquartejado no consulado saudita em Istambul, na Turquia.

Bin Salman admitiu que o assassinato está na sua esfera de sua responsabilidade. No entanto, nega a versão mais difundida entre ativistas de direitos humanos: a de que ele teria ordenado a execução do opositor.

O atual dono do Newcastle é o britânico Mike Ashley, um magnata do setor de lojas e marcas especializadas em artigos esportivos. Ele é o acionista majoritário do clube desde 2007. Nesse período, a equipe alvinegra conquistou dois títulos da segunda divisão inglesa.

De acordo com o "Financial Times", o negócio que fará com que a agremiação mude de mãos deve movimentar 345 milhões de euros (quase R$ 2 bilhões). Bin Salman entrará com 80% desse valor, que será completado por seus sócios minoritários.

Rafael Reis