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Rafael Reis


"Herói" do tetra sofreu mais com lesões e até faturou com pênalti perdido

Roberto Baggio, após desperdiçar o pênalti que decidiu a Copa-1994 - Folha Imagem
Roberto Baggio, após desperdiçar o pênalti que decidiu a Copa-1994 Imagem: Folha Imagem
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

25/04/2020 04h00

O dia 17 de julho de 1994 foi marcante para Roberto Baggio. Ao mandar pelos ares a quinta e última cobrança italiana na decisão por pênaltis da final da Copa do Mundo, o então craque da Juventus perdeu a chance de se tornar campeão mundial e virou "herói" para o Brasil.

Mas engana-se quem pensa que foi esse o momento mais triste da carreira do melhor jogador do planeta em 1993, que também vestiu as camisas de Vicenza, Fiorentina, Milan, Bologna, Inter de Milão e Brescia.

Baggio certamente não ficou nada feliz por ter entregado o tetra de mão beijada para a seleção brasileira. Mas seu verdadeiro sofrimento foi lidar com as inúmeras lesões e problemas físicos que tanto limitaram sua carreira.

Uma dessas contusões, aliás, é tratada até hoje pelo ex-atacante como o momento mais difícil da sua trajetória no futebol e também como um ponto que o transformou completamente como pessoa.

Em 1985, quando tinha só 18 anos e acabara de acertar sua transferência para a Fiorentina, Baggio rompeu o ligamento cruzado do joelho direito. Na época, uma lesão desse porte era uma chance bem razoável de fim precoce de carreira.

E isso quase aconteceu com Baggio. Ele passou por uma cirurgia, precisou levar 200 pontos no joelho, teve de lidar com a desconfiança de médicos que não acreditavam no seu retorno ao esporte e sofreu dores que jamais imaginou que seriam possíveis.

"Nessa hora, cheguei a pedir para minha mãe que me matasse", relembrou o italiano, durante um seminário promovido pelo jornal "Gazzetta dello Sport", no ano passado.

No momento mais difícil de sua vida, prorrogado por mais duas graves lesões sofridas após desembarcar em Firenze, Baggio encontrou apoio na religião. O craque abandonou o catolicismo que havia recebido como herança familiar e abraçou o budismo.

E abraçar é mesmo a palavra mais apropriada para falar da sua relação com o espiritual. Baggio tornou-se uma espécie de embaixador da nova religião na Itália, ajudou a espalhá-la pelo país e até hoje faz questão de citá-la em praticamente todas as entrevistas que concede.

"Buscava algo que me fizesse entender que tudo dependia de mim. Antes, eu culpava os outros. Eu era a vítima, e os demais eram responsáveis pelo meu sofrimento. O budismo me ajudou a entender que tudo começa por mim", disse o ex-camisa 10 da "Azzurra".

A crença ajudou Baggio a lidar com as dores crônicas que o acompanharam até o fim da carreira, no Brescia, em 2004, aos 37 anos, e que tanto o incomodaram durante a disputa da Copa dos Estados Unidos.

O craque jogou o Mundial inteiro com dores musculares. Sua situação se agravou depois de uma distensão na coxa direita, sofrida nas quartas de final. Dois dias antes da decisão, que será reexibida amanhã (26) pela Rede Globo, sua presença ainda era tratada como dúvida.

"Nunca cobrei um pênalti daquele jeito na minha vida. Talvez alto, mas não tão acima da trave. Às vezes, mesmo antes de dormir, eu penso naquele pênalti".

Mas, curiosamente, a cobrança desperdiçada na decisão não trouxe apenas coisas ruins a Baggio. O ex-atacante também ganhou dinheiro com o lance, que apareceu em pelo menos duas campanhas publicitárias.

Em 2001, a operadora de telefonia Wind exibiu uma propaganda em que o italiano converte o pênalti contra o Brasil e a Itália se sagra campeã mundial. Já a empresa de bebidas Johnnie Walker fez um comercial falando sobre a volta por cima do astro depois de ele fazer um gol de pênalti contra o Chile, na Copa seguinte (1998).

O valor dos cachês recebidos por Roberto Baggio para estrelar essas duas campanhas nunca foi relevado.

Rafael Reis