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Rafael Reis


"Será que me contaminei hoje?" Brasileiro relata medo no futebol de Belarus

William Alves, do Rukh Brest, em partida do Campeonato Bielorrusso - Divulgação
William Alves, do Rukh Brest, em partida do Campeonato Bielorrusso Imagem: Divulgação
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

27/03/2020 04h20

O zagueiro brasileiro William Alves vai a campo hoje (27) com duas preocupações. A primeira é derrotar o Energetik e ajudar o Rukh Brest a manter os 100% de aproveitamento no Campeonato Bielorusso. E a segunda é não se contaminar em campo com o novo coronavírus.

Apesar de já ter mais de 80 casos confirmados da covid-19, Belarus optou por não paralisar suas competições de futebol. E, neste momento, é o único país da Europa onde continuam sendo disputadas partidas oficiais da modalidade.

"Eu preferiria que o campeonato estivesse parado. Estou com um pouco de medo. Durante a partida, não me preocupo com isso. Mas, assim que tem o apito final, surge aquela dúvida: 'será que me contaminei hoje?'", afirma o defensor de 23 anos.

A preocupação de William não é à toa. O futebol é um esporte de contato, o que facilita bastante a transmissão do vírus. "Sou zagueiro, não tenho como evitar de encostar no adversário. Isso acontece o jogo inteiro".

A lista de profissionais da modalidade que se infectou com o coronavírus é bastante extensa, principalmente na Espanha e na Itália. A doença atingiu até craques consagrados do cenário internacional, como o atacante argentino Paulo Dybala, da Juventus.

Além do seu medo particular de também de contrair o vírus, o brasileiro precisa lidar com a preocupação da sua família, que, mesmo à distância, cobra diariamente que ele se proteja o máximo possível do coronavírus.

"Minha mãe, meu pai e minha esposa me ligando o tempo todo e pedem para eu não sair do hotel de jeito nenhum. O problema é que aqui está tudo muito tranquilo, com as pessoas na rua normalmente e ninguém usando máscara".

Para piorar, o ex-jogador do Goiás e do Santa Cruz tem sérias dificuldades para entender o que está acontecendo em Belarus. Como só chegou ao país um mês atrás e não fala inglês, William depende de dois companheiros de time, que são africanos e falam português, para se comunicar.

Seu empresário também é um aliado valioso. E é ele quem tem lhe informado sobre o andamento do futebol bielorrusso em tempos de pandemia.

"Meu agente falou que talvez eles paralisem o campeonato depois da rodada do fim de semana. Vamos torcer porque as coisas estão ficando perigosas. Minha família está preocupada e eu estou preocupado. A paralisação é o melhor para mim e para a saúde de todos".

Contra todos os prognósticos e ignorando o que está sendo feito no resto do mundo, a Vysshaya Liga, primeira divisão do futebol em Belarus, deu início à sua temporada 2020 no último fim de semana. Todos os oito jogos da primeira rodada foram disputados com presença de torcedores.

Segundo o presidente da federação local, Vladimir Bazanov, não havia uma "situação crítica" que justificasse o adiamento da competição. O dirigente também defendia que fechar os portões dos estádios só serviria para criar aglomerações do lado de fora das arenas.

O BATE Borisov é o maior campeão da história da ex-república soviética, com 15 títulos. Mas, no ano passado, foi superado pelo Dynamo Brest. O Rukh Brest, time de William Alves, nunca levantou a taça e subiu para a primeira divisão nesta temporada.

A pandemia do coronavírus começou mais ou menos na virada do ano e já se espalhou por todos os continentes. Até ontem, a OMS (Organização Mundial de Saúde) confirmava mais de 460 mil casos da doença em mais de 180 países. Os mortos já estavam na casa dos 20 mil.

Rafael Reis