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Rafael Reis


A história do brasileiro que cruzou com tanques de guerra para ir a estádio

Tiago Chulapa, em ação pelo Rajong, time da primeira divisão tailandesa - Divulgação
Tiago Chulapa, em ação pelo Rajong, time da primeira divisão tailandesa Imagem: Divulgação
Rafael Reis

Jornalista formado pela Universidade Estadual de Londrina e mestre em comunicação pela Fundação Cásper Líbero, foi repórter da Folha de S. Paulo por nove anos e mantém um blog sobre futebol internacional no UOL desde 2015.

28/02/2020 04h00

Tiago Chulapa não sente falta do futebol brasileiro. Artilheiro da segunda divisão da Tailândia na temporada passada e agora estreante na elite do país, o centroavante de 32 anos desfruta hoje na Ásia de um prestígio que nunca teve por aqui.

Mas, antes de se destacar com a camisa do Rayong e construir o melhor momento de sua carreira como profissional, o ex-jogador de Paraná, Bragantino, Cuiabá e Oeste passou por muitos perrengues no exterior.

O atacante está fora do Brasil desde 2014. Nesses últimos seis anos, sofreu com dificuldades de alimentação, ficou desempregado depois de um clube decretar falência, passou horas e mais horas esperando seus companheiros de time em um templo budista e até se assustou com tanques de guerra.

O episódio mais emblemático aconteceu logo em sua primeira temporada longe de casa, quando defendia o Sur, de Omã, pequeno país de cerca de 4 milhões de habitantes localizado no Oriente Médio.

Chulapa estava há poucos meses por lá e não sabia falar árabe. Quando estava a caminho da capital Mascate, notou que seu ônibus estava cercado por um tipo de veículo que ele só conhecia dos filmes de ação.

"Tomei um susto danado. Estávamos indo para o estádio e, de repente, cruzamos com um bando de tanques de guerra e várias pessoas apontando suas armas para a gente. Deu medo, ainda mais que eu não falava nada e não entendia o que estava acontecendo", conta.

Só depois o brasileiro ficou sabendo que o comboio com o qual havia se deparado era, na verdade, um grupo de refugiados que acabara de escapar do Iêmen, país vizinho de Omã e que está em guerra civil desde 2015.

O encontro com os tanques não foi o primeiro momento difícil de Chulapa no Oriente Médio. Sua chegada à região também foi para lá de conturbada.

"Em 2014, eu estava disputando a Série D do Brasileiro pelo Campinense quando recebi uma proposta para jogar nos Emirados Árabes. Fui para lá com um pré-contrato, mas eles não cumpriram nada que prometeram. Fiquei um mês só treinando, até que me chamaram para uma reunião avisando que o clube ia fechar as portas porque não tinha dinheiro para pagar os salários", contou.

Desempregado do outro lado do mundo, o atacante só não ficou parado por muito tempo porque um amigo lhe arranjou um teste para atuar no futebol de Omã. Ele foi aprovado e jogou durante dois anos por lá.

Depois, mudou-se para a Tailândia. A adaptação não foi fácil. Sozinho no país, teve que se adaptar a uma culinária bem diferente daquela a que estava acostumado e sofreu com o excesso de pimenta na comida.

Só que, depois de quatro temporadas atuando na segunda divisão e do acesso para a elite, Chulapa está completamente acostumado à nação asiática, tanto que já nem se incomoda em acompanhar os rituais religiosos dos seus companheiros de time.

"Já teve vez que fui a um templo e precisei esperar umas quatro horas enquanto meus colegas faziam suas orações. Aqui, a maioria da população é budista. Como essa não é minha religião, eu não participo. Mas acompanho e respeito", completa o atacante.

Rafael Reis