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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Atendente do Timão faz BO contra dono de camarote e irmão. Injúria é negada

Inauguração do camarote Fielzone, na Arena Corinthians - Ricardo Matsukawa/UOL
Inauguração do camarote Fielzone, na Arena Corinthians Imagem: Ricardo Matsukawa/UOL
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Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

14/05/2022 13h58

Uma funcionária do Corinthians registrou boletim de ocorrência (BO), classificado como injúria, pela internet, alegando ter sofrido agressões verbais por parte do dono do camarote Fielzone na Neo Química Arena, e de seu irmão. Ela alega ter sido chamada de lixo, além de ser ofendida com palavrões por Bruno Mendonça Rizzo, o irmão. O caso parou na caixa de e-mail da presidência corintiana, que foi copiada em um pedido dela para receber imagens do sistema de monitoramento do estádio. Em 2019, na inauguração do espaço, o camarote foi noticiado como uma sociedade com o Corinthians.

Indagado sobre a existência de sociedade, o clube respondeu que detalhes contratuais são protegidos por cláusulas de confidencialidade. Em nota à coluna, o Corinthians disse que acompanha a apuração do caso e ofereceu apoio psicológico à funcionária, entre outras medidas (a íntegra do comunicado está mais abaixo).

O problema ocorreu na partida entre Corinthians e Fortaleza em 1º de maio. No boletim de ocorrência, registrado no dia seguinte, Tatiane Paiva Martins de Sousa, que trabalha como atendente do Fiel Torcedor, afirma que sofreu agressão verbal de Leonardo Mendonça Rizzo, dono do espaço na arena corintiana, e de seu irmão, Bruno, em seu local de trabalho, a arena corintiana. Na Junta Comercial de o Estado de São Paulo, Bruno aparece sozinho como sócio e administrador da Fielzone Choperia e Pizzaria, negócio iniciado em 2020 e que também funciona na arena alvinegra.

Procurado, Leonardo negou as acusações (veja sua resposta na íntegra abaixo). A coluna não conseguiu entrar em contato com Bruno, apesar de deixar recado com seu irmão. E Tatiane não quis conceder entrevista.

No BO, a atendente declara que durante o entrevero, os irmãos ficaram exaltados e que Bruno tentou tirar o telefone de sua mão, a chamou de lixo, a mandou tomar no c... e disse que ela não teria mais seu emprego. Leonardo afirmou para este colunista que não ocorreram xingamentos, mas admite que houve bate-boca.

A atendente apresentou no BO cinco testemunhas que podem ser ouvidas pela polícia. A coluna apurou que, pelo menos duas delas, além de confirmarem a versão de Tatiane, dizem que Leonardo fez ameaças a ela afirmando que a atendente não trabalharia mais na Neo Química Arena, pois ele relataria o ocorrido para Lúcio Blanco, funcionário do Corinthians que trabalha na operação do estádio.

Segundo a versão relatada por Tatiana no BO, a confusão começou, por volta das 13h30, antes do jogo, porque os irmãos tentaram entrar pelo portão C com seis convidados, sem ingressos. Os tíquetes seriam trazidos depois por uma funcionária deles. Leonardo afirma que eles tinham os bilhetes para o jogo em mãos.

Conforme a atendente descreveu, aquela portaria é apenas para estafe, imprensa e, em caráter de exceção, pessoas com mobilidade reduzida com acompanhante, mediante apresentação de ingressos e validação dos mesmos no portão correspondente.

Ainda conforme a funcionária do Corinthians registrou no BO, ela informou ao dono do camarote e seu irmão que não seria permitida a entrada. Eles, então, se exaltaram, segundo sua versão, e disseram que a gerente de atendimento sabia que eles levariam os ingressos depois. Porém, a versão não teria sido confirmada pela gerente por telefone. Foi quando teria ocorrido a tentativa de tirar o celular de suas mãos e a sequência de ofensas. Depois, uma funcionária de Bruno trouxe três ingressos, segundo a declaração anotada no boletim de ocorrência.

O que diz Leonardo Rizzo?

A seguir, leia o depoimento do dono do Fiel Zone, à coluna sobre as acusações.

"É muito estranho. Tinha muita gente lá. A história é um pouco isso, mas não tem nada a ver essa parte de injúria, nada disso. Ela simplesmente barrou um cadeirante com acessibilidade com os ingressos lá, entendeu?

Daí a mãe do cadeirante, todo mundo ficou nervoso porque era um aniversariante que estava fazendo aniversário no estádio. A história toda é: uma mãe que tem um filho com deficiência, ela fez o aniversário do filho levando mais de 50 pessoas para o Fielzone, tá? Chegou lá, para acessar o Fielzone tem que subir a escadaria monumental. E todo o cadeirante tem que acessar o portão C, como é feito há anos.

Na hora que a gente levou o cadeirante, infelizmente, essa funcionária barrou o cadeirante de entrar. Foi isso que aconteceu. A menina simplesmente barrou. Não liberou a entrada do cadeirante, mesmo com os ingressos. Foi isso que acabou acontecendo.

Ela falou que não podia entrar. Só com autorização de alguém do Corinthians. Isso tudo está em câmeras do Corinthians. Só pedir as câmeras que vai ver tudo. Está tudo filmado. Ela chega a colocar a mão no meu peito e não deixa o cadeirante entrar.

Como vou estar sem ingresso se o Fielzone tem quase dois mil ingressos no estádio, num jogo fraco? Como que eu não vou ter ingresso?

Todo mundo que entra no estádio tem que ter um ingresso. A gente chegou com os ingressos para passar, e ela simplesmente não quis aceitar os ingressos. Que ali não entrava, que ali era só para funcionários. Sendo que tem duas catracas para ler os ingressos. O pessoal de outra empresa teve que pegar os ingressos, levar os ingressos até o portão, subir a escadaria, queimar os ingressos nessa portaria para a pessoa entrar lá embaixo. Não faz sentido nenhum. Tanto é que no último jogo o Corinthians instalou até placa para falar como funciona o procedimento de acessibilidade de tão errado que foi o processo dessa pessoa.

Era uma pessoa muito especial. Era um rapaz de 17 anos, que não era só acessibilidade, que foi acompanhado de pessoas de idade. Imagina o constrangimento da mãe, de chegar lá, não entrando junto com os amigos, sendo o aniversariante. Todo mundo foi dar o apoio psicológico para o adolescente. Aconteceu a frustração do aniversariante, aí todo mundo para dar um apoio emocional para o menino acompanhou até o portão C.

Eram seis pessoas. Cinco eram de idade. Eu e o meu irmão só fomos para acompanhar, porque aconteceu uma frustração muito grande. Fomos dar um apoio. Tinha um monte de gente lá, não sei o que essa pessoa quer. Vou até ver o que está acontecendo. Para nós, foi um bate-boca, o cliente totalmente revoltado pela falta de sensibilidade da pessoa e a gente querendo agilizar o que aconteceu. Eu não xinguei ninguém, ninguém xingou ninguém, palavrão não teve. Essa pessoa, não sei o que ela quer. Tanto é que no último jogo teve placas escritas, coladas... Então, algum erro de procedimento aconteceu por essa pessoa".

E-mail

Dois dias depois do atrito entre a atendente e os irmãos, Tatiane recebeu um e-mail de Lúcio Blanco com o seguinte assunto: "Requerimento de Filmagens referentes [ao] evento ocorrido 1/15/2022 às 13h30". O e-mail da presidência do Corinthians estava copiado, assim como Adriano Nociolli Monteiro Alves, irmão do presidente Duilio e secretário geral do clube, e José Colagrossi Neto, superintendente de marketing, comunicação e inovação do Alvinegro.

"Informo que já recebemos a solicitação através de outro e-mail, e o assunto foi repassado ao departamento jurídico do clube. Daremos retorno", disse Lúcio na mensagem.

O que diz o Corinthians?

Leia na íntegra a nota enviada pelo departamento de comunicação do clube.

"A diretoria do Sport Club Corinthians Paulista acompanha de perto a apuração detalhada do caso junto ao administrador da Neo Química Arena, assim como a prestação de todo o apoio necessário à funcionária.

Além disso, o clube colocou à disposição da advogada da funcionária as imagens das câmeras de segurança da Neo Química Arena; tão logo haja um acerto de data e horário, será realizada a exibição dos vídeos.

Entre as apurações em andamento, o concessionário envolvido na ocorrência já foi ouvido pelo clube através do administrador do estádio e do Coronel Veloso, gerente de segurança da Neo Química Arena.

O clube ofereceu ainda apoio psicológico à funcionária e lhe deu a opção de mudar seu local de trabalho a partir da partida realizada no último dia 11 de maio no estádio (primeiro jogo do Corinthians como mandante desde a ocasião), enquanto todos os fatos seguem sendo apurados. A funcionária, por livre e espontânea vontade, optou por trabalhar no mesmo posto de atendimento em que se deu a ocorrência.

Parceria com o Corinthians

O Fielzone organiza eventos antes, durante e depois dos jogos. Em 2019, a "Máquina do Esporte" noticiou a estreia do Fielzone com o Corinthians sendo sócio majoritário do negócio. Segundo a reportagem a sociedade se dá porque o clube não cobra aluguel, mas fica com parte do lucro. Mesmo em dias sem partidas, funciona a Fielzone Choepria e Pizzaria.

O camarote na Neo Química Arena está ligado à empresa Hospitality Soccer, que também tem o Fanzone no Allianz Parque. Na junta comercial, Leonardo aparece como titular e administrado da RML Eventos Esportivos, entre outras empresas com sua participação.

O crime de injúria

Injuriar alguém ofendendo sua dignidade ou o decoro é o que caracteriza o crime de injúria. A pena é de detenção de um a seis meses ou multa. O juiz pode deixar de aplicar a pena se o ofendido provocou diretamente a injúria ou se estiver sendo devolvida uma ofensa recebida antes.