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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Perrone: Abel Ferreira usa bem sua relevância, mas dificilmente será ouvido

Abel Ferreira comandando o Palmeiras diante do Guarani pelo Paulistão - Marcello Zambrana/AGIF
Abel Ferreira comandando o Palmeiras diante do Guarani pelo Paulistão Imagem: Marcello Zambrana/AGIF
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Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

07/03/2022 10h14

Um treinador vitorioso aumenta seu valor de mercado. Passa a ser disputado por clubes e, com isso, ganha melhores salários. Ele também conquista a confiança de torcedores, o que aumenta sua popularidade. Nesse combo, o técnico acostumado a empilhar taças passa a ter relevância. Tudo o que ele fala ganha destaque na mídia. As pessoas param para ler e ouvir.

Abel Ferreira, bicampeão da Libertadores, chegou nesse estágio. O treinador palmeirense é um cara relevante.

E ele usou bem sua relevância ao cobrar medidas contra o novo crescimento da quantidade de casos de violência no futebol brasileiro e contra o caótico calendário nacional.

A má notícia para o português e para todos nós, amantes do esporte mais popular do mundo, é que provavelmente o comandante palmeirense não será ouvido.

Abel tocou em pontos tão importantes quanto antigos. São questões que fazem o futebol brasileiro sangrar há décadas e ninguém ataca com eficiência.

O treinador cobrou entidades esportivas não só para melhorarem o calendário, mas também para se empenharem no combate à violência no futebol brasileiro.

Valeu pela preocupação, Abel, mas esquece. Os caras na CBF e nas federações estaduais estão em guerra pelo poder. Surpresa zero. Enquanto cada um tenta puxar a cadeira presidencial para o seu lado, ninguém vai te ouvir, Abel. Mas aparecer com você na foto eles vão querer.

Essa árvore não dá frutos, o máximo que vamos ouvir é que a segurança é um problema do estado e alguma enrolação qualquer sobre o calendário.

Claro, Abel também cobrou das autoridades ligadas à segurança pública um combate eficaz à violência no futebol.

Infelizmente, as chances de suas palavras ajudarem a motivar uma mudança são quase nulas. Há anos patinamos na caça aos vândalos que fazem de tudo para nos tirar o prazer de ir aos estádios.

Sou testemunha de que há promotores interessados em dar a esses criminosos o que eles merecem: cana. Mas, muitas vezes, eles são vencidos por advogados habilidosos que conseguem colocar seus clientes em liberdade. Precisamos ouvir esses promotores para saber o que precisa ser feito para tornar seu trabalho mais eficiente.

Antigamente, um caso de morte era capaz de motivar tentativas de aprimorar o combate aos torcedores criminosos. Porém, perdemos a capacidade de indignação.

Virou normal contabilizar vidas perdidas em brigas entre torcidas. Até as agressões de torcedores a jogadores começaram a ser banalizadas.

Poucos, como o técnico do Palmeiras e seu xará, Abel Braga, nadam contra a maré e entendem a importância de não encarar caso de violência no futebol como apenas mais um vídeo impactante para ser compartilhado no WhatsApp.

É preciso juntar forças. Promotores, juízes, policiais e dirigentes precisam colocar os problemas na mesa e buscar soluções com a urgência de quem salva vidas.

Jogadores e treinadores, devem seguir Abel, tanto o Ferreira como o Braga, porque a segurança deles também está em jogo. É necessário ir além das entrevistas e organizar outras formas de pressão. Mais profissionais relevantes envolvidos com a causa e movimentos que deixem os responsáveis pela segurança pública e pela organização do futebol brasileiro expostos, talvez, façam com que as palavras de Abel não tenham sido jogadas ao vento.