PUBLICIDADE
Topo

Perrone

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Perrone: Mimos de Leila a sócios e conselheiros ameaçam futuro do Palmeiras

Leila Pereira é eleita presidente do Palmeiras  - Reprodução/TV Palmeiras
Leila Pereira é eleita presidente do Palmeiras Imagem: Reprodução/TV Palmeiras
Conteúdo exclusivo para assinantes
Perrone

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

21/11/2021 10h23

A última etapa do projeto de Leila Pereira para se transformar em presidente do Palmeiras foi concluída neste sábado (20) com a manutenção da política de mimar eleitores.

No dia da votação, a candidata única ofereceu transporte gratuito para o eleitor, entre outros mimos, como mostrou o colunista do UOL Danilo Lavieri.

Leila já fez festa no clube distribuindo para sócios brindes como televisores e bicicletas. Isso em início de campanha para se reeleger conselheira. Ou seja, presenteou os eleitores.

Nos últimos anos se tornaram tradicionais os convites feitos por Leila e seu marido, José Roberto Lamacchia, também conselheiro, para membros do conselho viajarem no avião do casal.

Gradualmente, o clube naturalizou uma relação na qual quem quer ser eleito usa seu poder econômico para agradar o eleitor.

O estatuto palmeirense não veta tais práticas claramente, apesar de dizer que "o direito de voto deverá ser exercido sempre em benefício único e exclusivo do clube".

Nessa toada, a comunidade palmeirense escolheu não usar o bom senso e se inspirar na lei que veda a distribuição "de camisetas, chaveiros, bonés, canetas, brindes, cestas básicas ou quaisquer outros bens ou materiais que possam proporcionar vantagem ao eleitor" nas eleições municipais, estaduais e federais.

Entre os aliados de Leila há quem diga que sempre foi feita política no clube com candidatos bancando "pizzadas" e que ela só aumentou o sarrafo.

Esse argumento ajuda a criar a sensação de conforto para quem recebe os constrangedores benefícios.

Nesse processo, a maioria dos sócios e conselheiros palmeirenses parece compartilhar uma miragem na qual o Palmeiras só é forte hoje por causa do dinheiro da empresária.

O patrocínio da Crefisa e da FAM, empresas de Leila e seu marido, além do dinheiro emprestado por eles, ajudou muito o clube. Mas, a recuperação do Palmeiras tem mais a ver com a reorganização administrativa iniciada por Paulo Nobre, que também fez empréstimo para a agremiação, e continuada por Mauricio Galiotte.

Só que o poder de sedução provocado por um presente simples, uma viagem em jatinho particular ou contratações milionárias fez grande parte dos sócios e conselheiros desprezarem um princípio básico para toda instituição se manter forte: a ética.

Sem ela, o que foi construído até aqui está ameaçado. Não existe administração moderna baseada em conceitos arcaicos, como o clientelismo.

É difícil acreditar em progresso para o Palmeiras num cenário de favorecimentos pessoais. Foi assim que muito clube brasileiro se afundou.

O risco é maior ainda porque Leila é presidente, patrocinadora e credora do clube. É uma personagem com o rosto do conflito de interesses.

Chega a ser contraditório uma empresária de sucesso como ela não enxergar o óbvio conflito.

O currículo de Leila como executiva de várias empresas dá esperanças ao palmeirense de uma administração profissional. Mas o amadorismo vivo na política de presentear eleitores e quem deve fiscalizar suas contas é uma ameaça terrível.

Pelo menos um estrago já foi feito: o soterramento da oposição, que tem sua parcela de culpa na própria agonia por não ter capacidade mínima de aglutinação.

Sem opositores fortes e ativos, será mais difícil corrigir eventuais falhas administrativas.

Nesse cenário, o Palmeiras está entregue ao bom senso de Leila. Caso ela, repentinamente, resolva cortar os mimos para seus apoiadores, as chances de uma gestão profissional, eficiente e bem fiscalizada aumentam.

Se ficar como está, o risco de o Palmeiras ser administrado como uma empresa de família dos anos 1980, submetida exclusivamente às vontades de seu dono, será enorme.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL