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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ouro de Rebeca conclui arco transformador da ginástica brasileira

Rebeca Andrade é ouro no salto - Maja Hitij/Getty Images
Rebeca Andrade é ouro no salto Imagem: Maja Hitij/Getty Images
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Perrone

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

01/08/2021 12h12

A medalha de ouro no salto conquistada por Rebeca Andrade em Tóquio, neste domingo (1°), conclui um arco que levou mais de 40 anos para ser construído pela ginástica artística feminina do Brasil.

Nessa jornada, as brasileiras saíram do "o importante é competir" e chegaram ao lugar mais alto do pódio.

A equipe brasileira estreou na modalidade na Olimpíada de Moscou, em 1980. Doze anos mais tarde, em Barcelona, Luisa Parente se tornou a primeira ginasta brasileira a participar de duas Olimpíadas. Ela esteve também nos Jogos de Seul, em 1988.

O torcedor brasileiro era um sofredor na ginástica em Olimpíadas naqueles tempos. Uma classificação para a final geral individual, por exemplo, tinha sabor de vitória.

Não dava para ser diferente. Era um esporte pouco difundido no país.

Nos anos 1980 não tínhamos campeonatos de ginástica sendo transmitidos pela TV por aqui.

Nosso contato com a modalidade era feito nas Olimpíadas. Para as atletas, o solo não era suficientemente fértil para a produção de medalhas.

A grana para importar equipamentos de ponta para os treinamentos e para viajar rumo a competições internacionais era curta.

Afinal, quem investiria numa modalidade na qual o país era visto quase como alienígena, tanto no feminino como no masculino?

À torcida brasileira restava torcer por pequenas melhoras nas classificações olímpicas e criticar as notas dadas.

"Deram nota baixa para Luisa Parente porque não temos tradição. Se ela fosse romena, sua apresentação seria vista com outros olhos". Como torcedor, várias vezes apelei para essa paupérrima análise.

A linha do tempo da ginástica brasileira nos mostra que esse não era o problema.

Em 2001, com ajuda financeira do COI (Comitê Olímpico Internacional), o ucraniano Oleg Ostapenko chegou ao Brasil para comandar a seleção permanente de ginástica e acelerar a transformação da modalidade no país.

Em 2003, sob a batuta de Ostapenko, Daiane dos Santos se tornou a primeira ginasta brasileira a ser campeã do mundo.

A parceria rendeu dois movimentos com o sobrenome de Daiane, o que ajuda a dar a dimensão do feito de Rebeca.

Apesar de escrever duas vezes seu sobrenome eternamente na ginástica mundial, Daiane nunca conquistou uma medalha olímpica.

Porém, é inegável que ela e seu treinador ajudaram a pavimentar o caminho dourado de Rebeca. Repare que a primeira medalha olímpica da ginástica feminina brasileira, a prata no geral individual, conquistada no sábado (30) por Rebeca, chamou a atenção pelo fato de a apresentação no solo ter em sua trilha parte do funk "Baile de favela".

Daiane brilhou internacionalmente também embalada por um ritmo nacional ao se apresentar ao som do choro "Brasileirinho". Coincidência ou inspiração?

A evolução da ginástica brasileira passa por aporte financeiro, incluindo a participação do Governo Federal.

Foram erguidos centros de treinamento e comprados equipamentos de ponta.

Por tudo isso, ao olharmos a medalha de ouro de Rebeca enxergamos muitos rostos refletidos, além do dela. Daiane, Oleg, Tatiane Figueiredo, Luisa Parente, Camila Comin, Laís Souza, Daniele Hipólito, Jade Barbosa e a técnica Georgette Vidor, são alguns deles.

Nessa segunda (2), Rebeca pode dar mais brilho à nova fase da ginástica feminina brasileira que ela parece inaugurar. A era das supercampeãs. Sua terceira medalha pode vir no solo.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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