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Opinião: Hamilton é o recordista certo, na hora certa, no esporte certo

Lewis Hamilton ganha o GP de Portugal e, com 92 vitórias, vira o maior vencedor da história da Fórmula 1 - Jose Sena Goulao - Pool/Getty Images
Lewis Hamilton ganha o GP de Portugal e, com 92 vitórias, vira o maior vencedor da história da Fórmula 1 Imagem: Jose Sena Goulao - Pool/Getty Images
Perrone

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

25/10/2020 14h03

Lewis Hamilton é o recordista certo, no esporte certo, na hora certa. E o recorde de vitórias na Fórmula 1, 92 triunfos, foi alcançado neste domingo na pista certa, de Portimão, em Portugal.

O britânico parece um ídolo sob encomenda para a modalidade. Neste momento, o maior ganhador de corridas de um esporte elitista é um negro que aprendeu a usar sua voz para combater o racismo.

E o recorde, que pertencia ao alemão Michael Schumacher, foi quebrado num traçado que realça o que ele tem de melhor esportivamente: a capacidade de se adaptar a diferentes condições de carro e pista.

Essa facilidade de adaptação e de reagir rapidamente às adversidades ajuda a explicar como Lewis consegue obter resultados melhores do que Valtteri Bottas com um carro da mesma equipe.

Portimão tem uma pista diferente da chata padronização dos circuitos atuais. Até os pneus estão expostos a condições diferentes. Os pilotos precisam sair do modo automático e encontrar novas soluções com rapidez. Cenário ideal para Hamilton mostrar aos incrédulos que no comando de um carro fabuloso há um cara melhor do que a grande maioria que já vestiu uma balaclava.

O time pelo qual Hamilton atingiu a marca histórica também é emblemático para essa história ser escrita. A escuderia Mercedes tem ligação umbilical com a montadora que produziu material bélico para o regime nazista na Alemanha. Em 1988, a Daimler-Benz anunciou pagamento de indenização a funcionários que trabalharam de maneira forçada durante o regime nazista.

Hoje, a Daimler tem a maioria das ações da escuderia que brilha com um negro ao volante.

O domínio de Hamilton sacode um esporte feito pela elite para elite. Isso foi lembrado a cada volta do GP que lhe deu o novo recorde quando sua Mercedes contornava a curva envelopada pela Rolex, marca de relógios que só os endinheirados podem ter.

O hexacampeão não se limita a usar suas marcas incríveis para fazer a Fórmula 1 perceber o quanto inaceitável é sua bolha exclusiva. Ele grita tão alto contra o racismo que sua equipe pintou seus carros de preto como forma de manifestação contra o preconceito.

O mito das pistas forçou seus colegas a discutirem o tema. Alguns ficaram em situação desconfortável.

Com tais atitudes, Hamilton rasga o amarelado manual usado por ídolos da Fórmula 1 para se sentirem em paz com sua consciência.

Bastava ajudar entidades que cuidam de crianças carentes ou ter a sua própria fundação para fazer a sua parte.

Do mesmo modo que mostrou não serem suficientes as marcas de Senna e Schumacher para assegurarem recordes eternos, Hamilton ensinou aos demais pilotos que caridade não basta.

É preciso agir para mudar a bolha em que vivem e, se preciso for, ir às ruas para ajudar a mostrar ao mundo o que não é aceitável.

Dentro das pistas, Hamilton dá à F-1 o que ela precisa para não ser apenas um monótono templo de adoração a gênios do passado.

Fora delas, o britânico age para tentar fazer com que a modalidade deixe de ser uma usina de alienação em relação às questões sociais prioritárias.

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