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Menon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Apenas ingênuos se surpreendem com situação atual do São Paulo"

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal
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Menon

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar. Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

27/11/2021 12h10

O texto abaixo é do advogado Rodrigo Monteiro de Castro.

São Paulo Futebol Clube e os movimentos impeditivos da separação do futebol

A reforma estatutária promovida por Juvenal Juvêncio em 2006, para garantir-lhe mais tempo no poder, hoje cobra seu preço. Não se brinca com as instituições.

Ao brincar com elas, em nome das (supostas) necessidade, inevitabilidade e inexistência de um sucessor à altura, iniciou-se o processo de corrosão (e de destruição) dos pilares de sustentação de uma estrutura política que, no seu tempo, foi vencedora.

Desde então, o ambiente do clube se tornou nefasto. A politicalha se impregnou por todos os espaços e ações. As desinteligências internas passaram a ser vazadas para a imprensa. Promoveram-se ações judiciais desestabilizadoras do sistema. Ocorreram brigas, acusações de aproveitamentos pessoais em detrimento do clube, renúncia de presidente e denúncias criminais contra figuras nucleares da situação clubística.

Ante tudo isso, apenas o ingênuo se surpreende com a situação atual do time no campeonato brasileiro: desde 2009, com um ou outro raro suspiro, o soberano - alcunha que reflete a arrogância dos dirigentes que se julgam diferentes, melhores e superiores, e que há anos destroem um patrimônio material e imaterial que não lhes pertence - vem se transformando em saco de pancada.

Houve, nesse período, um fio de esperança, inviabilizado pela estrutura cartolarial, que insiste em propagar, pelas mídias sociais, uma grandeza que se assemelha à beleza de Dorian Gray.

Leco, o antecessor de Julio Casares, convocou, em 2016, assembleia geral para reformar o estatuto social. Não porque quis: decorreu do inevitável desfecho desfavorável de ação judicial que tinha por objeto o questionamento do movimento promovido por Juvenal Juvêncio - sustentado, lembre-se, em parecer de Carlos Miguel Aidar. A reforma surgiu, assim, como um remédio ao contexto da judicialização.

Apesar disso, a medida de Leco foi legitimada pelo intenso debate promovido, durante quase 6 meses, previamente à sua aprovação, sobre o conteúdo original da reforma, sugerido por uma comissão de associados, integrantes de várias correntes políticas.

Dentre as novidades constantes do estatuto se previa, no art. 170, que o Presidente eleito deveria elaborar, nos 12 meses seguintes à sua posse, com assessoria de terceiros especialistas, estudo de viabilidade visando à separação societária do futebol.

O trabalho se iniciou em 2017 com a escolha, pelo conselho de administração, conforme atribuição estatutária, da transnacional Deloitte - dentre 3 das maiores auditorias do planeta que apresentaram propostas de serviços.

Ao cabo do estudo, e constatada a viabilidade, foram apresentadas alternativas ao Presidente Leco que, após reunião de que participaram os membros do comitê especial de acompanhamento do estudo de separação (previsto no art. 171), dentre eles Raí, à época conselheiro, e José Eduardo Mesquita Pimenta, optou por uma das alternativas e a encaminhou, com parecer favorável, para aprovação do conselho de administração.

Na sequência o próprio Leco convocou reunião do conselho de administração para deliberar sobre o tema, que deveria, em seguida, ser encaminhado ao conselho consultivo, ao conselho deliberativo e, por fim, para deliberação da assembleia geral.

Na antevéspera daquela reunião, o convite aos representantes da Deloitte e aos especialistas no tema (dentre eles o subscritor deste texto), que formularam o estudo, foi cancelado. Soube-se, depois, que o então conselheiro José Eduardo Mesquita Pimenta, sem qualquer resistência do também conselheiro Julio Casares, avocou o tema, pediu para tirá-lo de pauta e, assim, o assunto permaneceu engavetado até o final do mandato de Leco.

Após a eleição de Julio Casares, o conselho foi recomposto e, magicamente, o tema reapareceu, logo na primeira reunião da nova composição, para - ao contrário de Fênix, que ressurge das cinzas - ser sepultado, em caráter definitivo, sob argumento de que havia incompatibilidade legislativa.

O São Paulo, que se tornou grande no ambiente associativo, por protagonizar medidas inovadoras, afirmou, assim, a sua nova vocação: o compromisso com o retrocesso e com o passado.

Não por acaso, o atual presidente afirmou, no Bola da Vez, que "quando falamos de sistema político, precisamos tomar cuidados. O sistema da sociedade anônima ainda não fez grande sucesso no Brasil, e o sistema associativo fez com que o São Paulo fosse tricampeão mundial".

É verdade. Mas os tempos eram outros. Os mesmos que fizeram do Club Athletico Paulistano tetracampeão paulista, aliás, o único da história, de 1916 a 1919.

Para acalmar o torcedor, com mais uma manifestação midiática, criou-se, recentemente, nova fantasia: uma comissão para estudar, no prazo de 12 meses, o tema da separação do futebol. Um ano! para proferir opinião sobre algo que já foi feito e que poderia ser atualizado em alguns dias ou semanas. E que, quando estiver pronto, perder-se-á em ano eleitoral, o qual terá, como protagonista, o próprio presidente, que, assim como Juvenal Juvêncio, promoverá, nos próximos dias, nova reforma estatutária para se manter, por mais três, ou seis anos, no poder.

A instituição não aguentará - e os sinais não poderiam ser mais evidentes.

Rodrigo R. Monteiro de Castro

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL