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Menon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Menon: Selvagens

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Menon

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar. Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

20/11/2021 12h00Atualizada em 21/11/2021 10h36

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. (Bertold Brecht).

Selvagens.

Foram chamados de selvagens.

E como chamar o capitalismo que nega a eles o que foi direito de seus pais e avós? O direito de ocupar o pior lugar, o mais incômodo, o mais barato lugar no Templo do Amor, onde se cultua a religião mais popular no Brasil.

Eles não podem mais ficar entre os seus, apinhados, encostados, suados. A eles, é negada a catarse. O gol, o abraço, o beijo, o suor, o grito, a comunhão. O gol. Que gol? Um gol que nem sempre é visto, é muita gente, a geral é pra muitos, mas que chega através de Jorge Cury, Waldir Amaral, João Saldanha, José Carlos Araújo, Luis Penido, Orlando Batista...

A eles é negado o mínimo. O direito de ser um geraldino.

A transformação de estádios em arenas passou uma borracha na geral. Futebol passou a ser coisa de bacana.

O mais próximo que podem ficar do Maracanã é em uma barraquinha vendendo camisa falsificada, amendoim, churrasquinho de gato, um goró. Um olho no troco e outro no rapa e uma vontade nunca realizada de estar do lado de dentro.

Detesto gourmetização da pobreza. Sabe aqueles filmes em que um cara sai de casa, na favela, é lógico, fala oi compadre para o vizinho e saem cantando um samba novo? Ou então, vê uma mulher bonita, fala uma gracinha e...estão transando gostoso?

Pois, é.

Não é assim, não. A vida do pobre é dura, um eterno se vira nos trinta, dividido entre tráfico, milícia e um mês que sempre dura mais que o salário. E bala perdida, que nunca acha a cabeça de rico.

Os geraldinos transformados em ambulantes que foram se despedir dos jogadores do Flamengo prefeririam ir a Montevidéu, adorariam ir ao Maracanã, mas não podem. Não mais.

O que fizeram foi um ato de pertencimento. De estar juntos com o time. De dizer traz o caneco pra mim. De poder contar ao filho que virá o pai esteve lá e ajudou o Flamengo a ser campeão. Se for, é claro. Se não for, não interessa. Ele estava lá declarando, da única maneira que restou, da única maneira permitida, no novo normal, o seu amor.

Selvagem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL