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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Menon: Vinícius Jr põe bagunça na ordem e transforma meu sonho em realidade

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Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar. Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

19/10/2021 21h08Atualizada em 19/10/2021 21h09

Eu tenho um sonho, uma forma idealizada de como nasceu o futebol brasileiro. Não foi exatamente assim, mas é uma maneira de explicar nossa grandeza.

Vamos lá.

Um belo dia, Charles Miller estava com seus colegas jogando football em um ground, com referee, linesmen, goal keaper, halfes, center forward e wings. A lineup bem definida, com muitos sobrenomes ingleses ou quatrocentões.

Pouca velocidade, passes sem ousadia, muitos tackles e crosses. Então, um deles dá um bicão na bola e ela ultrapassa os muros. Sobe com foguete de São João e cai como meteoro.

Do lado de fora, um garoto pobre, usando chinelo ou sandália, vê a bola caindo. Olha bem, estufa o peito e a acolhe com carinho de mãe. Obediente a bola desce até o pé, já descalço que apronta uma drible, uma chaleira, um calcanhar, um passe no vazio, uma maravilha qualquer.

Para mim, a gênese é essa. O futebol brasileiro é garrinchístico e chapliniano. É ousadia. É magia.

Nos tempos atuais de centroavante-marcador-de-volante e extremos-marcadores-de-lateral e da volta de termos ingleses como clean sheet e hat trick, até eu andei duvidando de minha crença, de meu sonho, de minha certeza idealizada.

E chega Vinícius Jr. Pega a bola fora da área, caminha com ela grudada no pé, pedala, dribla um, dribla dois, dribla o terceiro de passagem, não permite que o quarto chegue perto e marca.

Um gol assim é expressão da alma brasileira, como um samba de Paulinho, de Martinho, um biquíni cavado, uma poesia de Vinícius, um pagodinho do Zeca!

Ah, coisinha tão bonitinha do pai! Obrigado, Madrinha Beth.

Quando foi que os Vinícius no plural deram lugar aos jorges Henriques, como diz o Mauro Cézar? Quando o futebol brasileiro ficou tão blocado? Quando os jornalistas passaram a decifrar o jogo sempre a partir de uma supervalorização dos treinadores?

Se organizar direitinho, todo mundo transa. É amei da suruba. O futebol brasileiro está tão organizado que ninguém goza. Temos orgasmozinhos mequetrefes, sem barulho para não acordar os vizinhos.

Que Vinícius Jr, que Raphinha e Anthony coloquem bagunça nessa ordem sufocante! É meu sonho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL