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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Manifestações políticas engrandecem Olimpíada

Raven Saunders (Imagem - Folha de São Paulo) - Reprodução / Internet
Raven Saunders (Imagem - Folha de São Paulo) Imagem: Reprodução / Internet
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Menon

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar. Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

03/08/2021 13h43

Raven Saunders, dos EUA, medalha de prata no arremesso de peso, subiu ao pódio com os bravos cruzados, acima da cabeça, formando um X.

O X mostrava, segundo ela, o cruzamento em que estão todos os oprimidos. Saunders citou negros e a comunidade LGBTQIA+ (ela pertence aos dois expectros) e outros que não têm plataformas para se expressarem.

Saunders lembrou os compatriotas Tommie Smith e John Carlos, também negros, que fizeram o gesto característico dos Panteras Negras em 1968, no pódio dos 200 metros. O australiano Peter Norman, branco, foi solidário e também levantou o braco, com o punho cerrado.

Já se passaram 55 anos e gestos políticos em competições esportivas continuam sendo contestados. Não se pode misturar política com esportes, dizem aqueles que não têm nada a reclamar da vida.

E você, blogueiro, limite-se a falar sobre esporte, dizem aqueles que falam sobre tudo, de decatlo a Juliete, de Bolsonaro a receita de bolinho de chuva

Impedir manifestação política é limitar um ser humano. É dizer que ele só sabe pular, esmurrar, saltar, remar ..

Não é assim. Ficou claro, por exemplo, na luta de boxe entre Júlio César La Cruz e Emanuel Reyes, cubano exilado e que luta pela Espanha.

Reyes disse que estava ali para arrancar cabecas e que representava o exílio. Gritou "Pátria e vida", slogan dos descontentes com o regime cubano. Perdeu e ouviu La Cruz gritar "Pátria o Muerte, venceremos", o mote criado por Fidel há 60 anos.

Quem está certo? Os dois. Aproveitaram-se de um momento único para gritarem suas verdades. Os punhos não falaram sozinhos.

Os judocas Fehti Nourine, da Argélia, e Mohamed Abdalrasool, do Sudão, foram além. Nourine recusou uma vitória fácil contra o sudanês porque em seguida enfrentaria Tohar Butbul, de Isarsel. Abdalrasool, com a vaga inesperada nas mãos, também desistiu. Pelo mesmo motivo. Radicais, foi o veredito.

E a atuação de Israel no Oriente Médio, é o quê? O avanço mas fronteiras. O tratamento dado à Palestina, sempre oprimida e agredida?

O interessante é que os que falam em afastar política do esporte, como Galvão Bueno e Marcos Uchôa, no desfile de abertura, fizeram críticas ao regime cubano.

Aí pode, né?

Falar de Cuba é fácil. Difícil é ter coragem de falar do bloqueio econômico. Falar da China é fácil. Quero ver falar de Arábia Saudita e outros regimes em que a mulher é tratada como objeto.

Falar mal de governo dos EUA precisa ter coragem. É coisa para Megan Rapinoe, não para Galvão Bueno.

A Olimpíada é um evento lindo, um caldeirão multicultural. Multiétnico. As variações devem aparecer. Impossível serem reprimidas. Ainda bem que tem gente corajosa para assumir e soltar a voz. E cruzar os bravos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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