PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Menon


Menon

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Choro sem gatilho da guerreira Portela, que vê o sonho terminar

Conteúdo exclusivo para assinantes
Menon

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar. Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

29/07/2021 04h00

Você quer me fazer chorar, disse Leo de Deus ao repórter ao fim de sua prova na natação, ao ser lembrado da ausência do filho recém-nascido por causa de sua preparação para os Jogos. Sim, quer. O atleta deixa uma prova —derrotado ou vencedor— sob fortíssima emoção. É o fim ou a realização de um sonho de anos.

E muitos se colocam uma pressão imensa. Quando perdem, é como se tivessem falhado com a Pátria. Uma bobagem. É só judô, é só basquete, é só natação...

Enfim, o choro está pronto para explodir. Basta um gatilho. Gatilho que pode atingir o próprio jornalista, como foi com Ítalo Ferreira no surfe.

No caso de Maria Portela, não foi preciso. As lágrimas vieram imediatamente após a decisão do juiz em aplicar-lhe a terceira punição. Foi imediato e contínuo. Ela chorou por um bom tempo, aproximadamente igual ao tempo que lutou. Quinze minutos, o equivale a mais de três lutas completas. Quase quatro.

Continuou durante a pungente entrevista, em que pouco reclamou do árbitro —que não validou um wazari que lhe daria a vitória— e preferiu repetir que não conseguiu. Não conseguiu o quê?

Portela domina a categoria dos 70 quilos desde 2011, quando foi bronze no Pan de Guadalajara. São três ciclos olímpicos, algo raro, principalmente quando não há medalhas a mostrar.

E ela conseguiu. Barbara Timo tentou derrotá-la, não conseguiu e virou "portuguesa".

O domínio de Portela é baseado em muita seriedade, muito trabalho e muita raça. A palavra técnica não aparece quando os analistas são chamados a opinar.

Sem muito a acrescentar ao seu estilo e com 33 anos, Portela sabe que o sonho acabou. Paris está ali, em 2024, dá para tentar uma vez mais, mas interessa a ela? Interessa ao COB e à CBJ.

Foram lágrimas de frustração, de desespero. Lágrimas sem gatilho, choro imenso e intenso de uma guerreira que não vê mais batalhas a serem lutadas.

O choro que faz chorar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Menon