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Carta aberta a Jair Messias Bolsonaro: "Futebol não é morte"

Menon

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar. Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

29/05/2020 12h08

Caro presidente;

Quem escreve é um democrata. Não votei no senhor, mas respeito a voz das urnas e a legitimidade da escolha popular (tem um diabinho aqui no meu ouvido esquerdo dizendo que o senhor não acredita na urna eletrônica e que eu não devo esquecer do esquema de fake news, mas não vou levar isso em conta).

Apesar de não ter votado no senhor, algo nos une. Somos apaixonados por futebol. Com algumas diferenças, é lógico. Sempre fui muito ruim em todos os esportes enquanto o senhor foi um atleta no Exército, era o famoso Cavalão. Outra diferença é que eu sempre tive um único time, o São Paulo Futebol Clube e o senhor é Palmeiras, Vasco, Flamengo...

Sorte sua. Sempre tem um motivo para comemorar. Porque o futebol é isso, caro presidente. Paixão, amor, vibração.

Me permita uma digressão. No final dos anos 70, eu tinha um grupo de amigos na cidade de Lins, onde estudava. A gente fazia movimento estudantil e sonhava com a queda da Ditadura. Estávamos em campos opostos, presidente. Ainda bem que vencemos e hoje posso escrever civilizadamente para o senhor. Naquele tempo, seria diferente.

Bem, um dia estávamos todos recebendo um colega de outra faculdade. Me lembro como hoje: Kissinger, Frango, Embrião, Bodão, Edsinho, Toninha, Cadáver Jarbas, Raque, Denise, Deise, Tida, Cecel, Roseni, Lurdinha, o casal Zezé (calma, presidente, é só apelido, nada a ver com a questão de gênero).

Então, o colega visitante disse que futebol era o ópio do povo e só servia para afastar a gente da luta contra vocês. Bem, discordamos dele e até perdemos o respeito.

Como nós, de esquerda, poderíamos desrespeitar a paixão popular, o grande traço de união do povo brasileiro?

Então, presidente, voltando ao momento atual. Sei que o senhor gosta de futebol (aliás, conta aí qual é seu verdadeiro time, a Lazio?), mas, com todo respeito, o senhor está cometendo grande erro.

Ao trazer o futebol de volta de forma apressada, o senhor não estará levando alegria ao povo. Estará levando morte. Tristeza. Desgraça.

Já perdemos quase 30 mil compatriotas. Quase uma Aguaí, minha cidade querida, onde joguei, na esquina da General Osório com a Washington Luis, com craques como Valdirzinho Garrincha Loiro, Paulo Grilo, Ratão, Mirtu do Anísio e Zeca do Anísio, Edinho Zanela...

Vamos perder mais gente, como o senhor diz. Mas dá para diminuir, não dá? Se o senhor liberar o futebol, vai aumentar.

Hoje vai ter gol do Gabigol? Vai. E vai ter abraço, beijo, perdigoto, vai ter morte. Vai ter família destroçada, pai e mãe sem filho, noiva virando viúva antes do altar.

Não é exagero, presidente. Cada morto não é um número. É uma pessoa. Tem uma história de vida. São pessoas que, na maioria, votaram no senhor. Acreditam no senhor. Atenderão o seu pedido e correrão para o abraço.

Abraço com a Morte.

Não faça isso, Presidente. Nem todos foram atletas como o senhor.

Termino desejando-lhe boa saúde até o final de seu mandato. Estarei lá, na urna, votando para que o senhor não seja reeleito.

Menon