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Toninho Cecilio: "CBF é pífia e o Brasil é governado por ignorante"

Menon

Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar. Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

20/05/2020 19h39

Toninho Cecílio é uma das vozes mais qualificadas do futebol brasileiro. Jogador, treinador nível A da CBF, dirigente, ex-presidente do sindicato dos jogadores e formado em publicidade e propaganda, ele contou ao blog sua visão sobre problemas do futebol em tempos de pandemia.

Toninho, como os clubes brasileiros estão reagindo ao atual momento?

Claramente faltou uma liderança para colocar os proprietários dos direitos de transmissão (desde o Grupo Globo até às plataformas de streaming) clubes grandes e pequenos para prever o que fazer em três cenários: realista, otimista e pessimista.

Como definir os três cenários?

O vírus é aleatório, sem previsão, então seria necessário para China, Alemanha e outros países que já passaram pelo pior e criar parâmetros. Na China, tudo começou em dezembro e estabilizou em maio. Então, temos um parâmetro de cinco ou seis meses. No Brasil, começou em março. Então, uma previsão realista para a volta seria agosto. Pessimista, outubro. E otimista, junho.

E, então, o que fazer?

A partir daí, prever alterações no calendário. Quantas rodadas para o Brasileiro? Conversar com a Conmebol sobre Libertadores e Sul-americana. Teríamos um planejamento mínimo.

E a CBF, que atuação está tendo na crise?

Deveria ter tomado a frente, mas o desempenho é pífio. É preciso elogiar a liberação de 19 milhões para os clubes e a liberação de pagamento de algumas taxas mas é pouco. Pelo faturamento e lucro que tem, deveria haver um aporte de 80 a 100 milhões. Não se importaram com os clubes sem calendário.

E quando voltar, na sua opinião?

Olha, o Brasil perdeu. É governado por gente ignorante na presidência e na Saúde. Não tem cérebro. Eu, como leigo em saúde pública, acho que deveria voltar quando conseguimos um achatamento drástico na curva de casos e mortos. Estão morrendo mil por dia? Vamos chegar a 100 antes de pensar na volta.

Que tipo de futebol teremos após a pandemia?

Vejo dois macro cenários, com vacina e sem vacina. Com vacina, acho que os recursos poderão voltar ao normal em três anos, até que patrocinadores voltem a investir e que o público volte ao patamar atual.

Sem vacina, é o caos. Não dá para prever nada. Acredito que as competições internacionais percam viabilidade por causa dos voos. E as competições estaduais, em que se viaja de ônibus, possam ter um crescimento.

A adequação ao calendário europeu seria importante?

Não acredito. Precisamos de uma opinião mais crítica, construtora de pensamento. Não podemos "comprar" tudo da Europa, como se fosse perdeu. É complexo de vira-lata, é entreguismo. Falam que do jeito que está, perde-se jogadores durante o campeonato, mas se houver gestão, isso é evitado. Eu estava no Palmeiras em 2007 e 2008. Fomos obrigados a vender. Em 2009, com finanças equilibradas, recusamos propostas pelo Maurício Ramos, Cleiton Xavier e Pierre. Também acho que as férias escolares, quando as famílias viajam, ocasionaram perda de público e venda de pay per view. Além disso, há uma questão psicológica. Precisamos acabar tudo que lembre esse ano catastrófico. A começar pelos estaduais.

O que pensa do balanço dos clubes?

Tem muitos problemas, não. A montagem do elenco é fundamental para as finanças dia clubes. Sem citar nomes, eu vejo algumas estratégias erradas. Contratações feitas para a torcida. Futebol precisa de força, velocidade e intensidade e não se tem isso com jogadores veteranos com salários altos. Há má gestão por falta de conhecimento, de honestidade ou personalidade. Veja o caso do Cruzeiro. Contrataram o Rogério Ceni e não tiveram personalidade para bancar sua permanência. Foram dar ouvido a jogadores e caíram para a segunda divisão.

O treinador brasileiro é ultrapassado em relação aos estrangeiros?

Academicamente, sim. Não tínhamos um pensamento aqui, uma metodologia, livros. A Europa começou antes, mas recuperamos terreno. Hoje, só é atrasado quem tem preguiça de estudar

Mas é preciso cuidado para não se colocar todos no mesmo saco, como começou a ser feito após o 7 x 1 e agora com o sucesso do Jorge Jesus e do Jorge Sampaoli. Não podemos esquecer que o Sérgio Vieira, que é português, rebaixou o América-MG e que o Paulo Bento foi mal no Cruzeiro. Não é uma crítica, é um fato. Poderia ter acontecido comigo. E é bom lembrar que as grandes conquistas do futebol português foram com dois brasileiros, Oto Glória em 66 e Felipão em 2006.

O futebol brasileiro tem perdido algumas características históricas?

A parte teórica é importante, mas acredito que 70% do sucesso venha da vivência de vestiário, do aprendizado com outros treinadores, eu tive treino de marcação alta com o Minelli em 88, por exemplo. Precisa adquirir noções de fisiologia, preparação física e gestão. E é bom lembrar do Telê e seu São Paulo com tantas trocas de posição e do Tostão como falso nove em 70.

Como vê o futebol brasileiro tecnicamente?

Perdeu o drible, uma de suas características principais. Tudo começou o sucesso do Barcelona em 2008/2009 e da seleção espanhola em 2010. O jogo rápido, com poucos toques, a velocidade de raciocínio, saber onde o companheiro está...

O Brasil resolveu imitar o método de treinamento já na base. Hoje, um garoto de 16 anos, treina 80% do tempo em espaço reduzido e em dois toques. No domingo, não tem confiança para driblar, para o confronto.

Veja o Antony. Recebe a bola e não vai para cima. Prefere tocar para o lado ou para trás. É o que ele treina. É o que ele faz.

Temos uma seleção asséptica e sem alma. E muitos clubes no mesmo caminho.

Menon