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Jair Ventura: "Aquele gol anulado do Pedrinho me tira o sono até hoje"

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Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar. Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

30/04/2020 04h05

Era final da Copa do Brasil de 2018. O Corinthians havia perdido no Mineirão para o Cruzeiro, por 1 x 0. Precisava vencer por um gol de diferença, em Itaquera. Saiu atrás, empatou e virou, com Pedrinho. O gol foi anulado por Vagner Magalhães, alegando falta de Jadson em Dedé, antes de a bola chegar em Pedrinho.

"Esse gol me tira o sono até hoje", lembra, um ano e meio depois, o treinador Jair Ventura. "A gente sabe a força da Arena e da torcida. Aquele gol nos levaria para a decisão por pênaltis. Poderíamos ser campeões. Mas foi uma ducha. O time sentiu, a torcida sentiu e o Cruzeiro fez mais um. Seria meu primeiro título na carreira.".

Um título que mudaria sua vida. Mesmo com mais resultados (quatro vitórias em 19 jogos) teria sido campeão. E talvez ficasse, mesmo com Carille de volta ao Brasil e o clube transitando perto do Z-4. "Bem, eu nunca me preocupei com rebaixamento. Zero. Tanto que nos classificamos para a Sul-americana. Quanto ao Carille, era evidente que, por tudo de bom que havia feito, seu nome seria cotado para voltar, assim que deixasse a Arábia Saudita. Mas isso não me incomodou. Mantive meu trabalho o tempo todo, sem me importar com pressão".

Dois dias depois de sua saída do Corinthians, o telefone tocou. Era uma proposta do G-13. Jair recusou. E considerou que era tempo de parar. Estudar. Reciclar.

Um período sabático aumentado pela pandemia. E abençoado pela chegada de Maria Thereza, a primeira filha.

E como tem sido a quarentena, Jair?

De muito estudo, com horário e disciplina, além de mais contato com a família. Saudades das pessoas, de beijar e abraçar. E a certeza de sair dessa como um profissional melhor. E um cidadão melhor também.

São jogos e mais jogos. Praticamente todos de sua carreira. Uma análise crítica de quem não foge de respostas. Mesmo quando o tema é a fama de retranqueiro.

"Aceito, quando falamos de Botafogo. Realmente, era um jogo de marcação forte e transição. Tivemos em média 44% de posse de bola. A maioria de nossos gols era em organização ofensiva e não em transição. Foi a primeira vez que um time saiu do Z-4 e chegou na Libertadores. Passamos por Olímpia, Colo Colo, Nacional do Uruguai, Atlético Nacional e Estudiantes de lá Plata. Nosso problema era tomar muito gol de bola parada".

O "retranqueiro" foi muito bem. Mas, quando jogou mais aberto, não foi tão bem. Qual o seu modelo preferido, Jair?

"Sou brasileiro e filho de craque. Gosto de jogo bonito, mas bem organizado. A seleção de 70 era assim, com um trabalho espetacular de Zagallo. Mas eu sou mutável, me adapto".

Não só ele. Jair lembra que Roger Machado procurava ter a posse de bola no Palmeiras e joga de forma reativa no Bahia. O caminho inverso de Luxemburgo, do Vasco para o Palmeiras. Afinal, há formas e formas de vencer. No Brasil, na Inglaterra e em todo lugar. "É só comparar o Leicester com o City".

O "retranqueiro" do Botafogo se transformou em um romântico no Santos. "Cheguei a jogar em um 4-2-4, com Gabigol, Sasha, Rodrigo e Artur. Rodrigo se tornou o mais jovem a fazer um gol em Libertadores, superando o Neymar. Revelei o Pituca e o Bambu. O time tinha 78% de posse de bola, mais que no Corinthians, que tinha 68%. Respeitei o DNA do Santos. Classificamos em primeiro no Grupo e com uma rodada de antecipação".

Jair assumiu o Botafogo em 2016, em uma onda de jovens treinadores, como Carille e Odair Hellman. Parecia uma troca de gerações irreversível, mas o que se vê agora é, por exemplo, Luxemburgo assumindo Vasco e Palmeiras e Autuori no Botafogo. Ventura vê um certo simplismo na divisão erária.

"Nem todo treinador jovem é moderno e nem todo veterano tem medo da tecnologia. E é preciso ver as circunstâncias. O Gattuso é jovem e assumiu o Milan. Mas, qual Milan? Do Van Basten e Gullit? Ou, pelo menos o do Kaká e Shevchenko? Nada disso. Então, é uma generalização perigosa. Primeiro, só os jovens, depois só os veteranos. E agora, nenhum dos dois. Só os estrangeiros são bons? Tem bom e mau em todo lado."

Mais uma vez, Jair Ventura aborda o tema estrangeiros. Já foi chamado de xenófobo, por questionar Rueda no Flamengo.

E aí, é bom lembrar um sobrenome esquecido de Jair Zaksauskas Ribeiro Ventura. "Seria um monstro se adotasse a xenofobia, tendo avó polonesa. O que eu pedi foi reciprocidade. Nossa licença da CBF não permitia trabalhar fora. Agora, pode. Eu apenas estava esquentando o jogo em que iria enfrentar o Rueda. O Mourinho está certo. Treinador não tem passaporte".

O que vale é o trabalho. E Jair, que está trabalhando muito, inclusive aperfeiçoando o francês e o inglês, aceitaria voltar em um time da Série B. "Nenhum preconceito. O que interessa é ter um bom projeto. Eu estou muito melhor agora do que antes, mais bem preparado".

PS - Há tempos, não sou mais repórter. Não tenho o contato olho no olho, que ajuda muito a decifrar a sinceridade nas respostas do entrevistado. Mas, posso dizer que, por telefone, senti estar falando com um profissional sério, trabalhador e bem educado.

PS 2 - Agradeço aos colegas Vanderlei Lima, Rodrigo Vessoni, Nelson Nunes e Marcelo Laguna.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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