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Teté, o craque de Marcelo Mora, que é mais craque ainda

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Meu nome é Luis Augusto Símon e ganhei o apelido de Menon, ainda no antigo ginásio, em Aguaí. Sou engenheiro que nunca buscou o diploma e jornalista tardio. Também sou a prova viva que futebol não se aprende na escola, pois joguei diariamente, dos cinco aos 15 anos e nunca fui o penúltimo a ser escolhido no par ou ímpar. Aqui, no UOL, vou dar seguimento a uma carreira que se iniciou em 1988. com passagens pelo Trivela, Agora, Jornal da Tarde entre outros.

26/03/2020 04h06

Há uns anos, eu tirei férias do blog, que não estava aqui no UOL. Pedi alguns textos para amigos. Este, sensacional, é do amigo Marcelo Mora, que hoje vive em João Pessoa.

Teté

- Ó lá! Ó lá! Estão descendo.Vão montar as traves! Vamu lá!? Vamu, vamu...

- Será que eles deixam a gente jogar?

- Ó o tamanho dos caras! Se liga, pirralho!!

Era assim que tratávamos o mais novo dos quatro, como todo caçula deve ser tratado em uma patota de moleques. Recém-chegados ao Balneário Marrocos, éramos quatro garotos que amavam o Queen - isso mesmo, o Queen - e o futebol. E em se tratando do esporte bretão quatro era uma conta mais do que perfeita, ainda mais em um paraíso futebolístico com suas ruas de grama, ruas de areia e uma praia de areia batida, que, quando a maré baixava, a extensão da largura do campo se tornava maior do que o seu comprimento.

De tão perfeita a conta, estávamos enjoados dos nossos gols-a-gols diários, dos rachas em duplas com golzinhos de pedra. Era sempre Tomi (o mais velho) com o Ricardo (o mais novo) contra eu e o Sérgio (ambos da mesma idade e na faixa intermediária entre os outros dois "rivais"). Estávamos cansados dos nossos Corinthians x Palmeiras idílicos. Uma rivalidade estéril havia nos arrebatado. Não fazia mais sentido. Queríamos novos desafios, ir atrás de novos horizontes. E, definitivamente, o Balneário Marrocos era o lugar certo para isso.

Apesar da reprimenda ao caçula, todos os quatro tivemos o mesmo pensamento ao ver aqueles adolescentes se encaminharem descalços em direção à praia, com traves desmontadas, uma escavadeira, redes e, claro, a bola, seguindo-os como se bicho de estimação fosse. À distância, bem lá atrás, acompanhamos o cortejo. Ao

vê-los passar, outros jovens iam saindo de suas casas e os acompanhando, engrossando a romaria.

Chegando na praia, cumpria-se todo um ritual. Montar as traves, escavar na areia, colocar as traves, pegar pedras para prender a rede, dividir o campo, demarcar a área, escolher os times. Alguém, claro, chegava atrasado, depois de a bola rolar. Ninguém ficava de fora. Era o racha mais democrático do mundo.

Sem que ninguém nos desse pelota, sentamos atrás de um dos gols e ficamos assistindo atentamente e comentando cada lance. Logo estávamos pasmos.

- Não é possível! Vocês viram o que aquele cara fez!!?? Caraca!!

Ninguém respondeu.

- Olha!! Que drible! É ele de novo.

- Ó lá! Botou o cara na cara do gol!

- Que matada no peito! Vixêêê...

Logo, estávamos torcendo para aquele jovem moreno, de cabelo encaracolado castanho claro, narigudo, que sorria tão fácil quanto batia na bola e que todos se dirigiam a ele como Teté. Cada bola que vinha ou saía dos seus pés era uma surpresa, uma novidade para nós quatro. Nunca antes nas nossas curtas vidas tínhamos visto alguém jogar daquela maneira ao vivo e em cores e naquelas condições: descalço, um campo totalmente irregular - afinal, a água do mar escavava buracos na areia - e inclinado.

À noite, antes de dormir, os quatro, deitados lado a lado, sempre batíamos aquela resenha, filosofando sobre coisas importantes da vida, como o caldo que havia tomado em um "jacaré", como as tabelinhas e as jogadas feitas nos nossos "clássicos" diários, como faríamos para juntar dinheiro para comprar o último disco do Queen, que tinha acabado de ser lançado. Até que alguém se lembrou de Teté.

Uma unanimidade - algo raro entre os quatro; só o Queen tinha conseguido tal façanha - logo se estabeleceu: Teté era um craque, algo que comprovaríamos nos dias seguintes. Sim, pois os rachas na parte da tarde eram diários no Balneário Marrocos, sem que falhasse um dia sequer naquele verão tórrido de 1980.

- Cara, ele dribla como o Zico.

- É verdade!

- E ele bate falta e lança como o Rivelino.

- É verdade! Ele é canhoto, né?

- Sim, bate com a esquerda. Tinha de ser.

- E aquela jogada que ele matou no peito e meteu nas canetas do baixinho!!??

- Joga demais, tem muita categoria.

- Será que ele treina em algum time? Tem futebol para jogar em time grande. E com a 10.

- Sim. Tem que ser com a 10!

Esta foi a conclusão a que chegamos, antes de cairmos no sono. Nos dias seguintes, lá estávamos nós atrás do gol, atentos e vibrando a cada jogada de Teté.

Lá pelo quarto dia de tietagem discreta, Teté, após o final do racha, se encaminhou até nós e se apresentou. Sem jeito que éramos, mal conseguimos balbuciar as palavras. Apenas o mais novo de nós, mais atirado, logo indagou: "A gente pode jogar com vocês??"

Teté olhou para aquele pirralho e depois para os outros três, meio surpreso com a ousadia daqueles moleques, e abriu um sorriso.

- Vamos fazer o seguinte: amanhã vocês nos ajudam a carregar e a montar as traves e falo com o pessoal para ver se tem lugar para vocês jogarem, certo?

Topamos na hora, sem pestanejar. Nos dias seguintes, justamente o mais novo de nós, o Ricardo, não jogou, por ser muito pequeno. Mas até o final das férias de verão já havíamos feito amizade com todos e principalmente com Teté, a quem aprendemos a admirar como jogador e como amigo. Logo o mais novo estava integrado ao racha, mesmo jogando com os adultos. E descobrimos que Teté, com seus 17 anos, já jogava nas categorias de base do São Paulo, onde o pai era conselheiro.

Vendo-o jogar todos os dias, imaginávamos que chegaria logo a profissional e arrebentaria nos gramados como fazia lá no Balneário Marrocos. O tempo passou, e Teté continuou arrebentando nos rachas da praia. Avesso a concentrações, abandonou o Tricolor. Virou delegado em uma cidade do interior de São Paulo, onde mora com a mulher e os filhos. E onde bate uma bolinha, claro.

E quando nós quatro, já na casa dos 40, nos reunimos e conversamos sobre os velhos tempos, não falamos mais de Queen e nem de qualquer outra banda de rock, e nem dos "jacarés" naquela praia de águas quentes, mas lembramos "da estrela do entardecer morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre as ruas de areia antes da chegada da noite completa que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última praia e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, além dos andrajos da velhice"*, nós ainda falamos de futebol e pensamos no Teté; pensamos no velho Teté, o craque que jamais veremos nos campos; nós pensamos no Teté.

*Citação a On The Road, de Jack Kerouac

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