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Mauro Cezar Pereira

Fla quer Ceni "respeitando a crise". Time mais conservador pode ser a saída

Rogério Ceni, treinador do Flamengo - GettyImages
Rogério Ceni, treinador do Flamengo Imagem: GettyImages
Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

28/01/2021 04h00

As escolhas de Rogério Ceni, da escalação às substituições, passando pela estratégia, têm sido duramente atacadas por boa parte da mídia e da torcida. A avalanche de críticas aumentou depois da derrota de domingo, diante do Athletico, em Curitiba, que deixou o Flamengo mais distante da liderança do Campeonato Brasileiro, sete pontos atrás do Internacional, embora com um jogo a menos. Hoje o time encara o Grêmio, às 20 horas, em Porto Alegre. A seguir, apuração e opinião do blog em cinco tópicos.

1) Sem Rodrigo Caio, lesionado, a tendência é a continuação de Willian Arão na zaga, para qualificar a saída de bola, exceto diante de uma maior preocupação com o jogo-aéreo adversário. Pode ser o caso do Grêmio, que força esse tipo de lance com Diego Souza. A priori, Ceni opta por atletas com qualidade técnica na faixa central e um homem veloz pelo lado, no caso volta Bruno Henrique, com Gabigol ou Pedro lá na frente.

Opinião do blog: Arão na zaga não é uma aberração, pelo contrário, ainda mais com a lesão de Rodrigo Caio. Se bem treinado o sistema pode funcionar, como aconteceu na vitória sobre o Palmeiras, por exemplo. A questão é analisar o contexto e cada adversário antes de definir por ele na função, ou não. Contra o Goiás com seus dois centroavantes altos, ele não recorreu ao volante na zaga, diante do Grêmio talvez seja aconselhável uma dupla de especialistas na posição, mais altos, com o camisa 5 de volante e saindo um dos homens de meio-campo. Pelo desempenho recente, Everton Ribeiro.

2) O time não arrematou no alvo uma vez sequer no segundo tempo em Curitiba, onde perdeu por 2 a 1 para o Athletico. O técnico tem treinado finalizações quase que diariamente, mas os resultados seguem aquém. A dupla de centroavantes Pedro-Gabigol é entendida por Rogério Ceni como difícil de ser colocada em prática, devido aos momentos sem a bola, principalmente com o meio-campo mais técnico que vem sendo escalado.

Opinião do blog: A falta de pontaria e a demora na definição de algumas jogadas se transformou em defeito grave do time. Impossível não analisar tal deficiência sem observar o que (não) vêm fazendo os jogadores. Sobre Pedro e Gabigol juntos, é óbvio que o time perde na recuperação da bola, é preciso que ambos se dediquem mais em tais momentos, sejam preparados para isso. Mas em situações específicas, como na derrota em Curitiba, poderiam ter sido escalados juntos no segundo tempo. Precisando do gol, foi sem sentido a saída de Gabriel e, mais tarde, a entrada de Rodrigo Muniz, que obviamente ameaçava a defesa atleticana muito menos do que o camisa 9. As justificativas do treinador não convenceram, e o resultado tornou mais frágil a argumentação de que o jovem atacante recompõe melhor defensivamente.

3) O time fez dois gols a partir de bolas paradas nas duas últimas partidas. É um aspecto visto como positivo. Mas Ceni sabe que é pouco e precisa do título, pois ficou pelo caminho nos demais (Copa do Brasil e Libertadores), além de não possuir o estofo e a história que os seus atletas têm no Flamengo. Está ciente de que precisa ganhar e pode ser demitido após mais um resultado negativo, já que as pressões são intensas pela sua saída. Se vencer o Grêmio, seguirá vivo na disputa, jogo visto como de sobrevivência.

Opinião do blog: Apesar de gols surgirem em cruzamentos nas bolas paradas, é vergonhoso que os jogadores rubro-negros não marquem de falta desde 2018. Ceni era ótimo no quesito, mas seus atletas parecem ter aversão à possibilidade de converter uma cobrança direto nas redes. Se nem ensaiando isso melhora, e com diferentes treinadores, tem remédio? Não, o técnico não conta com o crédito que seus comandados possuem, se fracassar ao final do campeonato, sua situação será insustentável. Tanto que tem sido alvo da massacrante maioria das críticas, enquanto os atletas não são tão questionados. E ele precisa lidar bem com isso.

4) O treinador sabe que independentemente de qualquer outro aspecto, o resultado no final será preponderante. Acredita que com mais um dia de recuperação, quatro entre o jogo passado e o próximo contra três dos 2 a 0 no Palmeiras para o 1 a 2 diante do Athletico, o rendimento físico será melhor. Realmente o estilo agressivo na marcação desde o campo adversário, que fascinou a tantos em 2019, depende muito do condicionamento. Diante dos palmeirenses, no primeiro tempo apresentou tal postura.

Opinião do blog: esse aspecto físico é uma atenuante, mas não explica a falta de pontaria, os espaços generosos que vêm sendo oferecidos aos adversários às costas de Isla, por exemplo, entre outros problemas vistos em Curitiba.

5) Ceni percebeu que enfrenta o fantasma de 2019. Muitos do que dele cobram usam como referência o desempenho da equipe sob o comando de Jorge Jesus. O treinador tentou repetir a fórmula do português, notou que não era viável em temporada atípica e pelo lado físico nesses tempos de pandemia, então saiu em busca novas formas de montagem da equipe, como nos cotejos da semana passada. Deu certo contra o Palmeiras, não diante do Athletico. Talvez precise adequar a estratégia a cada adversário. E nisso, quanto menos complicar, melhor, ou seja, soluções ousadas o expõem ainda mais e um time protegido pode ser algo necessário, emergencial até. O entendimento entre os que comandam o futebol do clube é de que o treinador deve "respeitar a crise", procurando ser objetivo e até mais conservador.

Opinião do blog: Esse é um enorme problema do Flamengo atual, ser refém de 2019. Na pandemia e sem um trabalho consistente e mais extenso, é evidentemente impossível repetir o desempenho dos melhores momentos da temporada passada. E isso não é algo para preocupar apenas o atual treinador. Já era assim com quem o antecedeu e, caso saia, quem o substituir terá que encarar a mesma cobrança, exceto se os rubro-negros se conscientizarem que o time pode e deve jogar mais, contudo, não será simples voltar ao "outro" patamar. Mas nesse momento tenso e desesperado por resultados, uma estratégia mais convencional, que possa ser adequada diante de um adversário do porte do Grêmio, aparentemente faz mesmo sentido.