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Rogério Ceni garante que se o deixassem trabalhar, o Cruzeiro não cairia

Rogério Ceni observa partida entre Corinthians e Fortaleza em 2019 - Bruno Ulivieri/AGIF
Rogério Ceni observa partida entre Corinthians e Fortaleza em 2019 Imagem: Bruno Ulivieri/AGIF
Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

11/06/2020 04h00

Rogério Ceni está no calor do Ceará, dando treinamentos para o time do Fortaleza enquanto não voltam os jogos de futebol. O ex-goleiro não tem conversado muito com a imprensa, mas aceitou bater um papo com o blog. Em 44 minutos de conversa pelo telefone, o técnico falou sobre os planos para o time em 2020 e sua agitada passagem pelo Cruzeiro no ano passado, temas dessa primeira parte da entrevista.

Como está sendo a volta ao futebol, dando treinamentos com várias limitações?
Para mim a ausência do futebol por tanto tempo é difícil. Depois de 70 dias começar um planejamento. Trabalhamos em um período, à tarde, porque de manhã é muito quente. Nunca havia feito tamanha paralisação quando atleta e não existe um protocolo a respeito.

Como são esses treinamentos?
Grupos de seis pessoas, criando novos exercícios para adequar. Somente trabalho físico sem a bola cansa muito rápido. Segunda-feira comecei a parte tática, 10 contra zero, ou seja, sem oponente, treinando saída de bola, em casa e fora, porque é diferente a Série B e o que foi a Série A no ano passado. Estamos fazendo variações táticas com trabalhos físicos, sempre evitando a aproximação entre os jogadores.

Você tem elaborado treinos específicos a cada dia, como desenvolveu esse lado do trabalho como técnico?
O Michael Beale (auxiliar técnico inglês de Rogério no São Paulo), que trabalhou comigo e antes no Liverpool, foi o cara com quem mais aprendi a dar treinos. Aprendi com ele a desenhar novos treinamentos e a metodologia. Também temos que olhar o que é feito nos grandes clubes e adaptarmos ao nosso sistema de jogo, não há problema nisso.

Como e quando faz isso?
Os mais legais são aqueles nos quais, de madrugada, paro, sento e consigo criar. E é um prazer muito grande quando você desenha um treino seu e faz um treinamento, uma movimentação, cria novas linhas de passe, em losango, por exemplo. É um grande prazer ver um treino que começou do zero levado a campo e os atletas gostarem. Na madrugada, da meia-noite às duas, três horas, eu fico pesquisando e preparando os treinamentos. Ontem (segunda-feira) criei três para quinta-feira. É uma satisfação muito grande começar do zero e criar um exercício, pois alguns não dão certo. Mas quando põe no papel e sai no campo, é o maior motivo de satisfação para um treinador.

No ano passado você saiu para treinar o Cruzeiro e voltou, a ideia inicial é seguir no Fortaleza? Até quando?
Profissionalmente o correto é seguir e fazer o trabalho. Mas no futebol brasileiro nem sempre é possível. Acho que foi um risco, não um erro, mas também um aprendizado. Tinha tudo para dar certo e o Cruzeiro não cair para a Série B, mesmo com todas as dificuldades financeiras e até com alguns atletas. Não deu e acabei voltando para o Fortaleza. Não pretendo sair. Existem equipes com mais poder aquisitivo e chances de ganhar títulos nacionais, mas minha ideia é seguir até o encerramento da competição, mesmo que o campeonato comece em agosto e vá ate janeiro.

"Minha parcela de colaboração de o Cruzeiro estar na Série B é meu
trabalho no Fortaleza, que tomou uma vaga entre os 16 primeiros"

O que houve entre você e alguns jogadores do Cruzeiro?
Eu não gosto de falar sobre os atletas, não costumo fazer isso. Vitórias e derrotas são parte do processo. Outro dia vi que alguns reclamaram que eu teria dito que determinados jogadores eram mais velhos... Eu trabalho com mais de 50% do elenco do Fortaleza acima dos 30 anos. A idade não é uma coisa que me faça escolher o jogador, ou não, mas sim o condicionamento físico e a capacidade técnica. No Cruzeiro tentei dar velocidade ao time, eu tinha o David, o Pedro Rocha e um jogador que não é tão velocista, mas taticamente era importante, o Marquinhos Gabriel. O que falei foi que não conseguiria colocá-los, todos juntos, em campo ao mesmo tempo, pois teria que fazer uma rodagem. Se eu coloco o Thiago Neves com o Fred e o Robinho, para meu estilo de jogo, mais agressivo e físico, não conseguiria fazer isso. Acho que eles ficaram um pouco magoados, mas faz parte da vida.

Qual sua participação no rebaixamento do time?
Minha parcela de colaboração para o Cruzeiro estar na Série B é o meu trabalho no Fortaleza, que tomou uma vaga entre os 16 primeiros. O Cruzeiro é ótimo para trabalhar, pela estrutura, CT, funcionários educadíssimos em todos os setores. Tem tudo de bom, e tem muito menino bom. Entre os mais experientes, o Henrique, que tem 34 anos, e é um exemplo de profissional, hoje está no Fluminense. O Rafael, que está no Atlético Mineiro. Não tenho nada a reclamar dos jogadores. É a vida. Fui atleta vivi isso tudo e não tenho o que reclamar. Mas havia uma figura da diretoria que era o elo, que travava tudo, tinha muita amizade com os jogadores levava para um lado e para outro. Mas com todas as dificuldades e com os meninos da base, podendo fazer as alterações, tenho a convicção de que o time não iria para a Série B.

Se arrependeu por ter aceitado a proposta do Cruzeiro ou valeu pela experiência, mesmo durando pouco tempo?
Foi um aprendizado, nunca recebi um centavo, um dia de trabalho, nem minha passagem nem a rescisão de aluguel em Fortaleza. Trabalhei 21 dias morando no CT para entender como funcionava toda aquela estrutura e conhecer os funcionários, porque o momento era muito crítico, mas a torcida foi muito legal, empurrou em todos os jogos, e a estrutura é muito boa. Pena que a situação, o balanço anual fale por si só. Tínhamos jogadores que, mesmo naquele aperto, conseguiriam se desenvolver bem, como Fabrício Bruno, Cacá, David, que eu trouxe para o Fortaleza, o Adriano, da base, Rafael, lateral-esquerdo, o Dodô foi um baita jogador... Com a maioria tive bom relacionamento, o que deu uma bifurcada foi quando houve aquela declaração do Thiago Neves após o jogo contra o Internacional, e no jogo seguinte eles jogaram e foi aquela derrota vexatória (4 a 1 em Belo Horizonte) contra o Grêmio.

Nesta sexta-feira, a segunda parte da entrevista exclusiva: Rogério Ceni fala sobre Sampaolil, Jesus e afirma que jamais trabalhará para defender emprego.

Mauro Cezar Pereira