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Origem de torcidas organizadas é a participação política pela democracia

Ato a favor da democracia e contra o racismo na avenida Paulista, promovido por torcidas organizadas do Corinthians - Roberto Casimiro/Estadão Conteúdo
Ato a favor da democracia e contra o racismo na avenida Paulista, promovido por torcidas organizadas do Corinthians Imagem: Roberto Casimiro/Estadão Conteúdo
Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

31/05/2020 16h00

As organizadas surgiram ainda na primeira metade do século passado. A Torcida Uniformizada do São Paulo (TUSP) é de 1940, a Charanga do Flamengo de 1942, a Torcida Organizada do Vasco (TOV) de 1944, seguida pelas de mesmo nome do Fluminense (1946), do Bangu (1952) e do Botafogo (1957). Basicamente eram grupos que tinham o objetivo de apoiar o time de coração nas partidas, até mesmo alinhados com os dirigentes.

Mas em 1967, no auge da ditadura militar, surgiria no Maracanã uma faixa onde se lia "Poder Jovem". Era o embrião da primeira Torcida Jovem do país, a do Flamengo, hoje conhecida pela sigla TJF. Seu nome foi inspirado no movimento negro americano Black Power, O intuito, participar da política do clube, ir além do incentivo aos jogadores, questionar dirigentes, aproximar a arquibancada do eixo das decisões, então restritas aos cartolas.

Com motivos semelhantes, em 1969 corintianos criaram a Gaviões da Fiel. Eram tempos difíceis no Brasil e em especial para quem torcia pelo Corinthians, que na época encarava jejum de títulos que chegava a 16 anos. Aqueles alvinegros não queriam apenas apoiar a equipe, mas também questionar a gestão do então presidente há oito anos Wadih Helu, que na vida política transitava pelos partidos apoiadores do regime.

E esses são apenas dois exemplos entre tantos espalhados pelo Brasil, surgidos nas duas maiores torcidas do país. Mas ao enveredarem pelo caminho da violência entre elas, as organizadas construíram uma imagem negativa, alimentada pela imprensa sensacionalista que ignora tudo o mais que façam. Por isso, desinformados, inclusive jornalistas adeptos da generalização, quando as veem tentam limitar suas histórias e ações a brigas e atividades ilegais. Até quando elas acertam, dizem que erram.

Seria uma grande ingenuidade ignorar que muitas delas foram contaminadas nas últimas décadas, inclusive com facções do crime organizado tentando se apropriar de algumas torcidas. Mas as organizadas não são apenas isso e deveriam, claro, retomar às origens como as de Jovem Fla e Gaviões, lutando pela democracia. Dentro e fora dos clubes. Quando elas saem às ruas em momentos como o que vivemos, apenas honram suas origens.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL