PUBLICIDADE
Topo

Clubes de futebol abandonam patrocinadores na crise, diz diretor do Ibope

José Colagrossi, diretor executivo do Ibope/Repucom - Divulgação
José Colagrossi, diretor executivo do Ibope/Repucom Imagem: Divulgação
Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

15/05/2020 04h00

O diretor executivo do IBOPE "Repucom, José Colagrossi vive debruçado em estudos e análises sobre o mercado do futebol e suas possibilidades de negócios. Em entrevista ao blog, ele analisa o comportamento dos clubes brasileiros na crise causada pela pandemia de coronavírus, critica o mau aproveitamento dos canais mantidos pelas agremiações no YouTube e o abandono dos patrocinadores: "Ainda existe no futebol brasileiro a mentalidade do 'manda o cheque e não enche o saco' entre alguns clubes".

Como você analisa o aproveitamento das redes sociais e YouTube pelos clubes de futebol do Brasil durante a pandemia de novo coronavírus?
Vejo boas ações e interesse de muitos clubes em fazer bem feito, mas ainda muito aquém do potencial. Estamos fazendo um estudo levantando dados dos 20 clubes de Série A em todas as ações feitas em canal próprio, YouTube, Instagram, focando em qualidade de conteúdo, engajamento, alcance e valor de marca entregue aos patrocinadores etc. Claro que o volume não será semelhante aos jogos, mas será um bom indicador de quanto os clubes estão levando a sério as mídias sociais como canal de engajamento com seus torcedores. Vamos finalizar esse estudo quando essa crise passar e acredito que esse estudo irá beneficiar enormemente o futebol brasileiro pois trará muito aprendizado fundamental.

O que de bom tem sido possível observar nesse período?
Em relação às mídias sociais, coisas boas e outras ruins. A melhor coisa que aconteceu até agora, o principal fato positivo desse período de sete para oito semanas sem competição até agora, é que o brasileiro, especialmente o mais jovem, descobriu que o futebol não começou no ano 2000.

O que explica essa sensação?
O brasileiro tem memória curta e a memória coletiva do brasileiro em futebol não vai além de dez anos. Como se o período anterior não tivesse existido ou fosse algo sem importância. Por conta disso, o típico torcedor brasileiro pouco conhece da história do futebol ou mesmo de seu clube. A falta de competição gerou, aos torcedores, a oportunidade de ver jogos antigos, inclusive dos seus clubes. Ótimo rever e redescobrir jogos e jogadores esquecidos. Esse foi, na minha opinião, o melhor fruto dessa pandemia em relação ao futebol brasileiro. Deu a oportunidade a todos torcedores, por exemplo, de assistir os jogos da seleção tricampeã de 70. Assistir apenas, não! Comentar, discutir formação, tática em campo, muito bom. Futebol mais lento, mais arte, diferente. Espero que o resgate da história do nosso futebol não seja esquecido quando voltarem as competições.

O que os clubes estão desperdiçando?
Um dos principais ativos, patrimônio são ex-jogadores que, em grande parte, estão em dificuldade financeira. Jogadores que foram ídolos nos anos 70, 80 e mesmo 90, que não são conhecidos entre os torcedores mais jovens. Jogadores que os torcedores de mais idade tinham, e ainda tem, como ídolos. A necessidade por conteúdo neste momento está fazendo blogs, sites, e mesmo a TV voltarem a falar sobre esses ídolos. Vejo, com grande alegria, muitos craques do passado de volta a mídia. Mas não necessariamente pela mão dos clubes, infelizmente. Todos os clubes de futebol do nosso país têm seus ídolos de outras épocas. Por favor, tragam de volta esses jogadores, os usem em eventos ao vivo quando possível, eventos virtuais neste momento, vamos relembrar. É um patrimônio de cada clube que está lá em suas casas, pedindo para ser amado novamente. Como botafoguense, ter a oportunidade de ouvir de novo do PC Caju, um dos ídolos da minha juventude, foi uma delícia. As histórias, lembranças, trouxeram lágrimas. Nostalgia é uma força extremamente poderosa na paixão pelo futebol.

O que está indo mal?
Os clubes entenderam, finalmente, que devem gerar conteúdo para alimentar a paixão, pois na pandemia não tem vitória, derrota, títulos, nada. Então fazem lives, eventos, competições online, embora, infelizmente, em parte mal feito porque são feitos por pessoas, em sua maioria, despreparadas. Muitos clubes ainda veem a contratação de profissionais de jornalismo, comunicação e mídia como "custo", quando é "investimento". Não se cria conteúdo de qualidade, engajador, que gere alto alcance e impacto com amadores. Lembro que o conteúdo digital do futebol brasileiro compete, diretamente, com outros conteúdos, como lives de música, e são quatro ou cinco, no mínimo, todos os dias, além do conteúdo de altíssima qualidade do futebol europeu e outros esportes globais como NFL, NBA, WSL. Compete também com de canais de YouTube independentes. Isso sem falar de filmes, seriados, etc. Conteúdo de baixa qualidade gera audiência fraca, não reverbera, ou seja, a ideia pode ser boa, mas a execução não é.

O que dizer das lives de clubes?
Ótima ideia mas não atingiu o potencial. Vejo clubes com dezenas de milhões de torcedores apaixonados, ávidos por conteúdo de qualidade tendo dificuldade em por 100 mil numa live. Aí você vê shows musicais explodindo com milhões de pessoas. A demanda existe, mas ela está sendo mal suprida pelo futebol brasileiro. Live é um produto, e como qualquer produto tem que ser feito por pessoas que realmente entendam do assunto. Digo sempre aos meus alunos o seguinte: o único amador que teve sucesso consistente e duradouro no Brasil foi o Amador Aguiar, fundador do Bradesco. Comunicação é para profissionais!

E nisso tudo o que é realmente muito ruim?
O abandono do patrocinador nessa hora. Para se conseguir uma exposição de marca nas redes sociais, por menor que seja, é uma dificuldade. Na medida que não existe exposição de marca na TV, as mídias sociais são as únicas plataformas que os clubes controlam para gerar valor de mídia. Entretanto, muitos clubes não sabem fazer isso bem. Claro que exposição em mídia social dos clubes nunca vai compensar integralmente a falta de exposição em TV, mas minimiza o problema, mostra a intenção do clube em ser parceiro de verdade num momento desafiador. Acima de tudo, mostra atitude! Então, o patrocinador quer rescindir e os clubes acham um absurdo. Infelizmente, ainda existe no futebol brasileiro a mentalidade do "manda o cheque e não enche o saco" entre alguns clubes. Melhorou muito, sim, desde 2013. Mas tem espaço para melhorar. A analogia que uso é a seguinte. Numa corrida de 100 metros rasos, os corredores saem e chegam praticamente no mesmo tempo. Por outro lado, na maratona, existe um enorme distanciamento entre os corredores. Os melhores lideram a corrida, existe um grande bloco intermediário, e sempre tem os menos preparados lá atrás. Mas com enorme diferença de performance entre eles. Esse é o processo da profissionalização do futebol brasileiro. Poucos lideram, um grande bloco intermediário avança, porém mais lentamente, e outro bloco ainda mal saiu da linha de partida. A notícia boa é que todos correm na mesma direção. Também me preocupa muito neste momento, quando falo com os clubes, a alegação que ouço de alguns que quando voltar a competição a entrega de valor de mídia será igual ou próxima a de um ano regular.

E vai?
A minha resposta é não, pois mesmo que todos os jogos aconteçam, o que é absolutamente incerto neste momento, o calendário será comprimido em número menor de semanas com mais jogos em menos dias. E mesmo que sejam o mesmo número de jogos, serão menos dias de cobertura jornalística para gerar o valor. Uma coisa é dividir o calendário em 11 meses, outra é dividir em 8, o que parece ser neste momento. Portanto, certamente haverá menos exposição pois serão menos dias de cobertura. Simples assim! Sem entrar em outra discussão, pois se acontecerão vários jogos por semana, qual canal abrirá grade a todos os jogos? Então, menos jogos na TV, aberta ou paga, menor será o valor de mídia para os patrocinadores.

Quem sabe fazer?
Quando o clube não faz, sites independentes preenchem o espaço. Oportunidade perdida pelos clubes!

Qual é a dificuldade em fazer?
Como discutido antes, ainda vemos em muitos clubes, mas não todos, departamentos de comunicação com cargos ocupados por pessoas indicadas por diretores ou conselheiro sem o devido preparo técnico. Pessoas indicadas não por competência ou preparo mas sim por política do clube. Sempre tem eleição que gera politicagem forte. É processo decisório difícil. Aí você fica escravo de um modelo ineficiente, sem conseguir sair dele.

E o clube empresa?
O que se quer é gestão eficiente e blindada da corrupção e da politicagem. Se o modelo é clube associativo ou clube empresa, é menos relevante. Temos exemplos de sucesso no futebol brasileiro em ambos casos. Mas sem gestão profissional e transparente não haverá sucesso consistente e duradouro. Além disso, a torcida tem que fazer o seu papel pressionando, demandando, cobrando, criticando e elogiando. Não existe solução sem a torcida. Afinal, é o maior patrimônio de qualquer clube.

Mauro Cezar Pereira