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Zico lembra: quarteto de 1982 pouco jogou junto. Fato, foram só 382 minutos

Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

07/05/2020 04h00

Em ótima entrevista ao repórter Pedro Torre, da ESPN, Zico falou sobre um problema da lendária seleção brasileira de 1982: "Eu, o Falcão, o Sócrates e o Cerezo juntos, só na Copa do Mundo. A gente nunca tinha jogado junto com o Telê (Santana). Foram três anos de treinamento a gente jogando de uma forma. Quando chegou a Copa do Mundo ele criou aquela situação ali e aquilo ali a meu ver prejudicou o lado direito", disse Zico.

Realmente o Brasil só reuniu o quarteto em campo no meio do Mundial da Espanha, a partir do segundo jogo, contra a Escócia. Foram apenas 382 minutos de Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates no gramado ao mesmo tempo. Prejudicou o Leandro, que era acostumado a ter um Paulo Isidoro, um Tita voltando. E ali não tinha ninguém que ajudava por aquele lado. A gente caía esporadicamente, mas não era função de ninguém", acrescentou à ESPN.

Zico e Júnior festejam gol do Brasil na Copa de 1982 - S&G/PA Images via Getty Images - S&G/PA Images via Getty Images
Zico e Júnior festejam gol do Brasil na Copa de 1982
Imagem: S&G/PA Images via Getty Images

Zico lembra na entrevista que a seleção de 1970 se preparou melhor para reunir seu quarteto, formado por Gérson, Rivellino, Tostão e Pelé! "Se a gente treinasse o período, aqueles quatro, para saber quem ia cair lá, quem ia marcar e fechar aquele setor....e isso aconteceu a partir do segundo jogo. Então é uma diferença. Não é só a qualidade individual. É preciso também a tática, o conjunto", disse o ídolo rubro-negro.

O quarteto genial de 1970 se reuniu pela primeira vez com o comando de Zagallo em 29 de abril daquele ano, no 1 a 0 sobre a Áustria, no Maracanã. Mas ainda sem Jairzinho, o titular era Rogério. Rivellino, reserva de Gérson até então. O quarteto teve nova chance uma semana depois, já no México, nos 3 a 0 sobre o Deportivo Guadalajara. Somente 11 dias depois, nos 5 a 2 sobre o León, os quatro, mais Jair, foram titulares.

Gérson não jogou nos 3 a 0 sobre o Irapuato, dez dias antes da estreia na Copa do México frente a Tchecoslováquia. Paulo Cézar Caju o substituiu. Em 3 de junho, nos 4 a 1 sobre o tchecos, lá estava o quarteto, ou quinteto se quisermos incluir o Furacão da Copa. Detalhe: antecessor de Zagallo, João Saldanha escalou 13 vezes Gérson, Jairzinho e a dupla Tostão-Pelé, como prometeu ao craque do Cruzeiro ao assumir a seleção em 1969.

Às vesperas da Copa, Zagallo aproveitou o entrosamento adquirido por esses quatro com Saldanha, trocando Edu por Rivellino, que saiu da suplência de Gérson para se firmar no onze principal. Também desistiu de Rogério e Roberto Miranda, efetivando de vez Jairzinho e Tostão. Foi um ajuste com participação de dois treinadores, sem dúvida um processo de entrosamento mais longo do que o de 1982. Vejamos...

Quase três anos antes da Copa do Mundo, a seleção reuniu o quarteto na goleada sobre o Ajax, no Morumbi. Em 21 de junho de 1979, a equipe brasileira fez 5 a 0 no time holandês, mas o desenho era outro. Cerezo e Falcão no meio-campo com Zico. Sócrates, vestindo a camisa 9, mais avançado, atuando com dois pontas, Nilton Batata, do Santos, e Joãozinho, do Cruzeiro. Detalhe: Claudio Coutinho ainda era o técnico.

Entre 1980 e 1981, Falcão, já na Roma, atuou apenas uma vez pela seleção, nos 7 a 1 sobre a Seleção Brasileira de Novos. Na ocasião, Sócrates o substituiu, Cerezo veio do banco em lugar de Batista. Zico foi titular. Aquela foi uma das ocasiões nas quais os quatro estiveram em campo, mas não ao mesmo tempo. O craque revelado pelo Internacional reapareceria apenas no quinto jogo do Brasil no ano da Copa.

Em 19 de maio de 1982, no Estádio do Arruda, Recife, o empate em 1 a 1 com a Suíça teve Falcão, Sócrates e Zico titulares. Cerezo substituiria o ídolo do Corinthians durante a peleja, que teve Careca como centroavante e dois jogadores pelos lados, Paulo Isidoro pela direita e Éder na esquerda, o desenho inicial esboçado por Telê Santana.

Em 27 de maio, no Parque do Sabiá, em Uberlândia (MG), Falcão, Sócrates e Zico foram titulares e ganharam a companhia de Toninho Cerezo por meia hora, com sua entrada no lugar de Paulo Isidoro aos 15 da etapa final. Brasil 7 x 0 Irlanda, foi o último compromisso antes da estreia no Mundial da Espanha, em Sevilla. Ali Telê se decidiu pelos quatro reunidos.

No primeiro duelo da Copa, o estádio Ramón Sánchez Pizjuán recebeu Brasil e União Soviética, jogo marcado por erros de arbitragem contra o time vermelho. Falcão, Zico e Sócrates iniciaram ao lado de Dirceu, uma surpresa na ocasião e que desaparecia do certame no intervalo, e Eder. Serginho comandava o ataque devido à lesão que tirou Careca da Copa.

Após a vitória por 2 a 1 sobre o soviéticos com petardos de fora da área do "Magrão" e de Éder, o adversário foi a Escócia. Suspenso, Toninho Cerezo não atuou na estreia e ganhou a esperada chance desde o início com Falcão, Zico e Sócrates. Dirceu e Paulo Isidoro, que dividiram o cotejo anterior, cada um jogando a metade, foram barrados.

Sócrates Copa 1982 - REUTERS/Herbert Knosowski/Landov - REUTERS/Herbert Knosowski/Landov
Sócrates era um dos símbolos da seleção que deu show, mas perdeu a Copa de 1982
Imagem: REUTERS/Herbert Knosowski/Landov

Nos 4 a 1 sobre os escoceses e nos 4 a 0 em cima da Nova Zelândia, Toninho Cerezo, Falcão, Zico e Sócrates atuaram todo o tempo. Em ambos os jogos Paulo Isidoro entrou na segunda etapa, sempre no lugar de Serginho. Algo de alguma forma semelhante ao jogo contra o Ajax, no já distante 1979, o quarteto e dois pontas, contudo, ambos com vocação de meias, ao contrário dos incisivos Nilton Batata e Joãozinho da goleada sobre os holandeses.

Os quatro se reuniram desde o primeiro minuto nos 3 a 1 sobre a Argentina, mas desta vez a mudança foi Batista no lugar de Zico aos 37 do segundo tempo. Na traumática derrota para o Itália, novamente os quatro jogaram juntos todo o cotejo, que teve Serginho novamente sacado para a entrada de Isidoro aos 24 do segundo, dois minutos depois de Falcão empatar em 2 a 2 e cinco antes de Paolo Rossi decretar o triunfo da Azzurra.

O quarteto esteve reunido apenas em 352 minutos na Copa. E mais 30 antes dela com o mesmo treinador. Realmente pouco. Reflexões que, 38 anos depois, podem ajudar a entender melhor o que aconteceu. Será que o time inesquecível do imaginário de tantos de nós seria bem melhor caso o lendário Telê Santana notasse antes que a reunião dos quatro era um bom caminho? É, mas ele não teve um João Saldanha para lhe abrir caminho...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL