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Klopp? Guardiola? Crítica a Zagallo por Saldanha. A quarentena de Tostão, 3

Tostão gostaria de ver o que Jorge Jesus faria em um gigante europeu - Divulgação
Tostão gostaria de ver o que Jorge Jesus faria em um gigante europeu Imagem: Divulgação
Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

30/04/2020 04h00

Na quarentena, Tostão parou para conversar por mais de uma hora com o blog, que já publicou a primeira e a segunda partes da entrevista. Neste trecho final, o colunista da Folha de S. Paulo e craque da Copa do Mundo de 1970 falou sobre seus treinadores preferidos na atualidade. Disse que gostaria de ver o que Jorge Jesus poderia fazer em um grande clube europeu e lembrou do Mundial que venceu, em 1970, ao falar do não reconhecimento de Zagallo ante a importância de João Saldanha na construção daquele time.

Qual o técnico que você contrataria hoje, em 2020?
Fico na duvida entre (Jürgen) Klopp e (Pep) Guardiola, os que mais me encantam por terem uma visão mais abrangente do jogo, existem outros técnicos que são bons mas têm visão mais limitada, como (Carlo) Ancelotti e (José) Mourinho. Já o Jorge Jesus, a grande sacada dele, é que não defende um estilo, tem a mente aberta e sabe fazer. Mas muita gente tem ideia e não sabe fazer. Como Klopp está um pouco à frente, fica a ideia de que passou o Guardiola, mas é cada um do seu jeito.

Na Europa , Jorge Jesus teria condições de fazer o que, tendo nas mãos um time de ponta, um desses gigantes?
Ele junta capacidade de inovar, pensar e saber fazer. Com técnico não podemos criar a ilusão de que onde ele chegar vai ficar tudo uma maravilha, pois não depende somente dele, mas também de uma série de fatores. A gente o vê no Flamengo e qual minha dúvida sobre ele?

Qual?
Como esse cara há tanto tempo e com essa capacidade que demonstra aqui não está no Liverpool, Barcelona, Juventus, Real Madrid? Ele deveria ter brilhado num grande time, fico sem saber porquê? O Cruzeiro ficou cinco seis anos com um time espetacular e um técnico (Ayrton Moreira) que a instrução era "vamos lá". E ficava de fora conversando com a imprensa. Mais ou menos o que acontecia com Antoninho, técnico do Santos, na minha época. Klopp já era bom demais no (Borussia) Dortmund. Eu gostava de ver aquele time jogar por causa dele, pelo jeito que montava o time com jogadores mais modestos. Já o Guardiola montou times brilhantes com grandes jogadores. O técnico precisa encontrar condições boas para uma revolução, o que Jesus encontrou no Flamengo. Mas não existe varinha mágica, se ele chegar ao Arsenal não significa que fará um time tão bom como Liverpool e Manchester City, precisa encontrar condições boas para isso.

Em coluna recente você cita um dos responsáveis pela preparação do Brasil nas eliminatórias da Copa de 1970, Lamartine Pereira da Costa, oficial da Marinha brasileira, escolhido por João Saldanha, que era de esquerda, em plena ditadura, somente por causa da competência técnica. As diferenças, políticas inclusive, entre as pessoas atrapalham, hoje, mais do que antes, o desenvolvimento, no futebol e fora dele?
Saldanha concordou com a participação dele, mesmo não sendo uma pessoa de seu ambiente. Tem gente que acha que essa foi uma das razões da queda do Saldanha, a comissão técnica era muito competente, mas eram pessoas que, mesmo com o tempo, não eram amigas dele, que precisava de gente mais íntima. Sem dúvida isso acontece no futebol e no Brasil. Quando estava falando que os europeus desenvolveram a parte científica, técnica e tática é porque eles são mais frios em sua escolhas, no Brasil não. Formam grupinhos, "você é meu amigo" etc. O diretor coloca quem ele quer, coloca na categoria de base o amigo. O técnico, empresário entra no meio empurrando pessoas, jogadores, técnicos, diretor de futebol... Os Estados Unidos têm todos os defeitos, mas o que eles mais gostam é de alguém competente. No Brasil perdemos isso.

Você escreveu: "Zagallo e Parreira nunca reconheceram a importância de Saldanha na preparação do time brasileiro". Seria pelas questões políticas já abordadas? Por vaidades?
Acho que mais por vaidade, eles não tinham preocupações políticas, nunca tiveram. Não era porque Saldanha era esquerdista, ligado ao Partido Comunista, mas por achar que se não fosse por eles o Brasil não seria campeão do mundo. Zagallo, quando entrou na seleção, logo falou que se jogasse no esquema tático que o Saldanha jogava o Brasil não ganharia a Copa. Eles viam o Saldanha como um sujeito fora do futebol, um jornalista.

E era...
Na verdade o Saldanha não era um estrategista, como 99% dos técnicos da época. Mas ele era um sujeito capaz. Depois da Copa de 1966 fizemos excursão à Europa e tomamos um baile da Alemanha em 1968. O futebol brasileiro parecia acabado. Saldanha, quando entrou, deu uma nova feição ao futebol brasileiro. Então ele teve um papel de organização inicial do time. O Zagallo mudou uns três jogadores, então Saldanha teve valor. Ele era muito humanista, conversava muito bem, gostava de sentar com o jogador e ter um papo. No outro dia que chegou à seleção, sentou ao meu lado e perguntou porque eu não era titular, qual era o problema, se era disputar com Pelé. Então disse que a partir daquele dia eu seria titular absoluto. Com Pelé na frente! Ele não tinha um jeito estratégico. Zagallo na época foi muito bom técnico do ponto de vista da estratégia, porque, como disse, 99% dos treinadores eram de entregar camisa. Zagallo não. Ele treinava muito tático e o Parreira era uma pessoa preocupada em saber o que era o correto. Saldanha era visto como um jornalista, alguém nada a ver com o futebol. Zagallo era aquele pensamento, "méritos meus somente". "Se eu não entrasse o time não ganhava". Ele falava isso, não houve nenhum gesto de gentileza, de reconhecimento, sempre quando perguntado não davam nenhuma importância ao Saldanha.

E o Zagallo da Copa do Mundo da França?
É, em 1998 ele ficou com raiva de mim porque escrevi que os treinos eram iguaizinhos aos de 1970, quando tudo era diferente. O futebol havia mudado. Então ele ficou bravo (risos).

Mauro Cezar Pereira