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Coronavírus: clubes "vivos-mortos podem acabar como Cruzeiro e Portuguesa"

Cesar Grafietti, consultor financeiro de clubes de futebol - Gabriel Carneiro/UOL Esporte
Cesar Grafietti, consultor financeiro de clubes de futebol Imagem: Gabriel Carneiro/UOL Esporte
Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira nasceu em Niterói (RJ) e é jornalista desde 1983, com passagens por vários veículos, como as Rádios Tupi e Sistema Globo. Escreveu em diários como O Globo, O Dia, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e Valor Econômico; além de Placar e Forbes, entre outras revistas. Na internet, foi editor da TV Terra (portal Terra), Portal AJato e do site do programa Auto Esporte, da TV Globo. Trabalhou nas áreas de economia e automóveis, entre outras, mas foi ao segmento de esportes que dedicou a maior parte da carreira. Lecionou em faculdades de Jornalismo e Rádio e TV. Colunista de O Estado de S. Paulo e da Gazeta do Povo, desde 2004 é comentarista dos canais ESPN.

18/04/2020 15h12

O Flamengo pegou R$ 40 milhões emprestado. Vai quebrar por isso? Qual poderá ser o futuro dos clubes mais endividados e que atrasam seus pagamentos após a pandemia? Na Europa o futebol vai minguar? O blog fez essas e outras perguntas a César Grafietti, que elabora, para a CBF, o projeto de implementação do fair-play financeiro no Brasil. . Ele é o consultor que lidera a equipe responsável pelas análises dos balanços dos clubes feita pelo Itaú BBA. De Milão, onde segue em longa quarentena, ele deu a entrevista a seguir.

O Flamengo pegou R$ 40 milhões emprestado, isso deve preocupar o torcedor?
O Flamengo fez um bom trabalho ao colocar no balanço que havia feito um teste para saber quanto tempo aguentaria em caso de crise, mas foi uma informação que as vezes traz mais malefícios do que benefícios. Fica uma situação estranha quando alguém fala: "Ah, mas o clube pegou dívida. Não vai pagar a parcela do Léo Pereira ao Athletico, mas o clube disse que aguentava três meses".

Mas o clube fez um teste e publicou, não?
É verdade, ele fez um teste, colocou isso no balanço, foi bastante transparente, mas muitas vezes, menos é mais. Já que ninguém faria, talvez o Flamengo talvez tenha utilizado sua prerrogativa de ser um clube mais profissionalizado do que outros, e tentou colocar uma informação, algo que no mundo corporativo, em empresas, é considerado normal, mas num ambiente muito mais incerto, ainda mais com a COVID-19m complexa em todos os setores e no futebol não seria diferente.

Mas quando se fala em empréstimo a reação dos torcedores é de medo...
Sim. Partindo dessa premissa de que todo mundo achava que o Flamengo aguentaria três meses, você falar que o Flamengo pegou um empréstimo pode preocupar torcedores e mexer com os rivais. É muito normal. Todas as empresas que têm capacidade de tomar financiamentos estão fazendo isso. O mundo corporativo vai atras de dinheiro para formar um colchão de liquidez, ficar com caixa e ir passando por esse período de receitas mais baixas. O que o Flamengo fez foi simplesmente usar os benefícios de ter finanças em ordem e credito no mercado para passar por essa fase.

Isso pode ser um problema?
Não é nenhum problema. Estamos falando de um valor de R$ 40 milhões, que dentro do orçamento do Flamengo, que dentro do fluxo de caixa do clube, em condições normais, dependendo do prazo, e deve ter tomado uma linha longa, se encaixa. O Flamengo não quebrar por cauda disso, pelo contrário, ele está utilizando essa possibilidade para garantir a continuidade da operação, mesmo em tempos difíceis.

E os demais clubes?
Naturalmente, se o Flamengo tem uma situação dessas e conta com crédito no mercado para buscar, fico imaginando os que não têm crédito. Clubes que vinham se financiando via atraso de impostos, ou com empresários e tudo mais. Esses de fato... tem alguns vivos-mortos que vão deixar de viver entre nós por causa da COVID-19. Não é ela que vai levar a essa situação, mas será a pá de cal em alguns casos. E muito difícil o clube conseguir sem credito, sem boa gestão, sem ativos, sem estrutura financeira robusta chegar ao mercado e conseguir uma alternativa de financiamento em momento duro como esse, sinto que alguns clubes vão sofrer muito.

Quando você fala em "pá de cal", quer dizer acabar o clube?
Acabar como o Cruzeiro, por exemplo. Na Série B, sem dinheiro, com baixa expectativa de solução. Mas quem não souber sair do atoleiro pode acabar como a Portuguesa, por exemplo.

Ou seja, o clube não acaba de fato, mas míngua de vez. Como ocorreu com o Leeds United, por exemplo, que investiu pesado, foi campeão inglês em 1992, vice europeu em 1975, mas caiu para a segunda divisão inglesa em 2004, foi parar na terceira em 2007, somente em 2010 saiu de lá e segue na segundona sem retornar à Premier League até hoje?
Isso! Clubes grandes que por problemas financeiros perdem a relevância.

Há notícias de que o Corinthians possa recontratar o Jô, o Atlético foi buscar Sampaoli, faz sentido?
É curioso, você vê o Atlético reduzindo salários em 25%, ao mesmo tempo em que acabou de contratar um diretor de futebol e um técnico, pagando salários altos, e fala em contratar atletas que estão fora do Brasil e ainda assim com dívidas pendentes. Os dirigentes ainda não entenderam que primeiro você preserva a operação, salários, dia a dia, deis vai atrás dos investimentos. Aí vai dizer que tem um investidor que está pagando contratação, salario. Bobagem se você tem pendências e não paga em dia, todo mundo vai sofrer. A situação desses é muito mais complexa do que a daqueles mais organizados.

Quais seriam esses mais organizados?
Flamengo, Palmeiras, Grêmio. O Goiás, que tem uma situação bem cômoda, pelo menos vendo os números que temos aqui. Athletico Paranaense, Bahia. Esses estão aptos a aguentar um pouco mais de tempo, mas ninguém vai suportar três, quatro, cinco meses sem jogo. O dinheiro da televisão é fundamental.

E tem o sócio-torcedor...
Isso, fará falta principalmente a quem tem programas mais fortes, como Palmeiras, Grêmio, embora tenha um associado que é mais do que isso, é um sócio patrimonial; Flamengo também sofre, Corinthians vai sofrer muito, mais a bilheteria, principalmente dos que estavam na Libertadores. Os clubes dependerão de publicidade, e quem tem muitas marcas pequenas sofrerão perda de patrocinadores; e TV. Por isso que os jogos têm que voltar.

Em pontos corridos o Brasileirão?
Sim, em 38 rodadas, para garantir que o dinheiro entre e o fluxo de caixa mude um pouco.

E o cenário aí na Europa?
Fora o topo da pirâmide, ninguém tem muita falta, estão reorganizando fluxos de pagamentos de salários, de forma geral há acordos para prorrogar pagamentos, perdão de parte dos pagamentos pelos atletas. Isso fica mais fácil com os clubes que pagam em dia e tem jogadores que ganhar mais. Outra situação é negociar quando se tem atrasos constantes.

O dinheiro do futebol vai diminuir?
O futebol está pausado, não acabou, dizem que o volume de dinheiro cairá, mas não vai. Neste ano, nessa temporada, por falta de público sim, mas os contratos de TV durarão mais duas, três temporadas, os patrocinadores podem abrir mão um ou outro, mas na hora que a economia voltar à normalidade, continuarão operando e pagando seus patrocínios. Os clubes poderão ter um fluxo menor no mercado de contratações, mas quando a economia retomar, os níveis de receita voltarão e mais para a frente em negociações de direitos de TV entram outros players. Nada garante que uma Amazon não vá entrar nesse mercado que pode ter o afastamento de alguns outros

O futebol europeu ficará mais fraco?
Teremos novos acionistas comprando clubes, sou cético diante da tese de que o futebol vai diminuir na Europa. Acho que o dinheiro vai migrar para onde há melhor qualidade de jogo, mas nao vai acabar E na Europa os clubes têm acionistas fortes e conseguem negociar dívidas, ajustar fluxo de caixa.

Mauro Cezar Pereira