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Marcel Rizzo

A final da Libertadores que o Palmeiras errou na escolha da sede. E perdeu

Valdir Joaquim de Moraes e Marcos; ambos ficaram na história do Palmeiras - Fabio Braga/Folhapress
Valdir Joaquim de Moraes e Marcos; ambos ficaram na história do Palmeiras Imagem: Fabio Braga/Folhapress
Marcel Rizzo

Marcel Rizzo - Formado em jornalismo em 2000 pela PUC Campinas, passou pelas redações do Lance!, Globoesporte.com, Jornal da Tarde, Portal iG e Folha de S. Paulo, no qual editou a coluna Painel FC. Cobriu Copas do Mundo, Olimpíada e dezenas de outros eventos esportivos.

Colunista do UOL

28/01/2021 04h00

Tupãzinho, duas vezes, e Rinaldo marcaram e o Palmeiras venceu por 3 a 1 o Estudiantes no segundo jogo da final da Libertadores naquele 7 de maio de 1968. Era o troco da derrota por 2 a 1 de cinco dias antes, em La Plata, e que pelo regulamento da época gerava uma situação inexistente hoje em dia: a realização de um terceiro confronto desempate em campo neutro.

A festa no vestiário do Pacaembu foi interrompida por cartolas palmeirenses que se dirigiram aos líderes do elenco, como o goleiro Valdir, o volante Dudu e o lateral Ferrari. Era preciso votar nas duas opções dadas pela Confederação Sul-Americana como sede para a terceira partida: Montevidéu, no Uruguai, ou Santiago, no Chile. A escolha se mostrou um erro.

O Estudiantes já havia optado pela capital uruguaia. Se o Palmeiras votasse em Santiago, a CSF (hoje Conmebol) faria um sorteio. Não foi preciso porque diretores e jogadores palmeirenses também escolheram Montevidéu, por comodidade: uma viagem um pouco mais curta, tanto para o elenco quanto para os torcedores.

Entre o segundo e o terceiro jogos da decisão sul-americana havia o clássico contra o Corinthians, pelo Campeonato Paulista, e três dias depois da finalíssima um encontro contra o Santos de Pelé, time que rivalizava com o esquadrão palmeirense conhecido como Primeira Academia. Se hoje a Libertadores é a obsessão, como cantam os torcedores, na época o Estadual era mais importante e derrotas contra os principais adversários significaria ter que dar muito mais explicações do que o insucesso na Libertadores.

No dia 16 de maio de 1968, uma quinta-feira, o Palmeiras entrou em campo para jogar não em um campo neutro, mas na segunda casa do Estudiantes. No Estádio Centenário estiveram quase 60 mil pessoas e, segundo reportagem do jornal "Folha de S. Paulo" em sua edição de 17 de maio, 10 mil eram palmeirenses. O restante uruguaios curiosos, mas principalmente argentinos que apenas tiveram o trabalho de cruzar o Rio da Prata para ver seu time.

O Estudiantes venceu por 2 a 0 e conquistou o primeiro dos quatro títulos continentais que tem. A equipe brasileira perdia a sua segunda decisão (havia sido derrotada em 1961 pelo Peñarol).

A invasão

O erro geográfico na escolha da sede do jogo neutro da final de 1968, e que fez o Palmeiras atuar fora de casa praticamente, foi contada a poucos jornalistas alguns anos atrás por Valdir Joaquim de Moraes em uma resenha pós-treino na Academia de Futebol palmeirense.

"Seu" Valdir, como era conhecido no mundo do futebol o ex-goleiro do Palmeiras e da seleção brasileira, lembrava bem daquele 16 de maio de 1968: foi seu último jogo com a camisa alviverde. Depois disso, ele passou a trabalhar em comissões técnicas e foi precursor no treinamento exclusivo a goleiros. Valdir Joaquim morreu em janeiro de 2020, aos 88 anos, após falência múltipla dos órgãos.

Apesar de os brasileiros não darem bola para a Libertadores na época, a derrota palmeirense em Montevidéu teve chamada na capa da "Folha de S. Paulo" que tinha como manchete "Paris, cresce a revolta operário-estudantil". O movimento conhecido como maio de 1968 foi o estopim da revolução sexual e por direitos civis na Europa.

Na capa da página de Esporte o título foi "Palmeiras perde o jogo e a taça". O texto começa com o que, para o repórter à época (não há assinatura no texto), foi importante para a derrota: o clima de visitante e o frio. "Sessenta mil pessoas, suportando uma temperatura de menos de dez graus centígrados, assistiram nesta noite, no estádio Centenário, desta capital, a mais uma derrota do Palmeiras em peleja decisiva da Taça Libertadores".

Segundo o relato do jogo, o Palmeiras que entrou em campo decepcionou totalmente. "Realmente os 10 mil torcedores do Palmeiras que voaram a Montevidéu para assistir ao jogo ficaram inteiramente desencantados com o modo de jogar do quadro para o qual vieram torcer, pois o alviverde jogou sem vibração, atabalhoado, nervoso, como se tratasse de um conjunto sem qualquer experiência internacional", diz o texto.

Após o segundo gol do Estudiantes, marcado aos 36 minutos do segundo tempo por Juan Ramón Verón, "La Bruja", pai do Verón que os mais jovens conhecem, a "Folha" relata que os torcedores do Estudiantes invadiram o gramado, interrompendo a partida por vários minutos. "Seu" Valdir, quando contou a história a jornalistas, lembrava da invasão e relatou que alguns jogadores palmeirenses temeram pela integridade, apesar da festa argentina.

Hoje seria impensável um clube brasileiro cometer um erro estratégico desse: aceitar jogar na Libertadores em um campo neutro que sabia-se que jamais seria neutro. Quase 53 anos atrás, porém, era comum deixar o torneio em segundo plano. Em 1968 o Palmeiras não conquistou títulos.

Errata: o texto foi atualizado
Estudiantes tem quatro títulos de Libertadores, não três.