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Marcel Rizzo


Esculhambação do Carioca faz lembrar velha escola da cartolagem no futebol

De Arrascaeta encara marcação na semifinal da Taça Rio entre Flamengo e Volta Redonda. Jogo foi à Fla TV após confusão - Thiago Ribeiro/AGIF
De Arrascaeta encara marcação na semifinal da Taça Rio entre Flamengo e Volta Redonda. Jogo foi à Fla TV após confusão Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Marcel Rizzo

Marcel Rizzo - Formado em jornalismo em 2000 pela PUC Campinas, passou pelas redações do Lance!, Globoesporte.com, Jornal da Tarde, Portal iG e Folha de S. Paulo, no qual editou a coluna Painel FC. Cobriu Copas do Mundo, Olimpíada e dezenas de outros eventos esportivos.

Colunista do UOL

08/07/2020 17h53

Classificação e Jogos

Quanto vale o direito de transmissão de um campeonato com as novas plataformas disponíveis? Quanto vale o direito de transmissão de um time específico, que segundo a Medida Provisória assinada por Jair Bolsonaro, que pode virar lei no futuro, dá ao mandante das partidas esse direito?

Se depender do esforço que os protagonistas do Campeonato Carioca, principalmente o Flamengo e a Ferj (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro) estão fazendo, as empresas que se interessarem por esses produtos podem entender que não vale tanto assim. Afinal, se um contrato for assinado ele irá até o fim? E a lei valerá ao pé da letra ou à interpretação que eu der a ela dependendo do meu interesse?

A esculhambação que se transformou as transmissões dessa reta final do Carioca em meio à pandemia teve como protagonista o Flamengo. A direção do clube foi até Brasília se encontrar com Jair Bolsonaro em 17 de junho e no dia seguinte uma Medida Provisória atravessou a discussão que uma nova Lei Geral do Esporte pode dar ao direito de transmissão esportivo no Brasil.

Que se faça justiça: dar ao mandante o direito exclusivo de negociar a transmissão de um jogo não é um desejo apenas do Flamengo. Tanto que ao menos outros oito clubes, incluindo gigantes como Palmeiras, Santos e Inter, se posicionaram favoráveis posteriormente. O momento e o modus operandi, entretanto, não foram ideais.

O momento porque você muda a regra no meio do jogo. No contrato do Grupo Globo com a federação carioca pelo Estadual, o Flamengo não estava incluído, portanto partidas do time da Gávea não tinham transmissão. Da noite para o dia, às vésperas do torneio reiniciar, muda tudo e o Flamengo se vê, com base no texto da MP, no direito de transmitir seus jogos em sua rede social. A Justiça num primeiro momento também entendeu assim, depois a liminar caiu, mas o estrago estava feito. A Globo avisou que rescindiria o contrato.

O modus operandi porque mesmo que a maioria dos clubes prefira assim era preciso discussão ampla sobre o assunto e que uma lei fosse elaborada, não uma canetada do presidente que, inclusive, pode caducar em alguns meses.

A impressão de que foi feita sob medida para um clube só aumenta quando o dirigente desse clube aparece como cotado a assumir um cargo no governo federal e quando esse clube resolve pegar o texto da MP, colocar de ponta cabeça, porque quer transmitir a final da Taça Rio sem ser o mandante.

A diretoria do Flamengo montou o melhor time brasileiro em anos e acertou ao contratar um técnico como Jorge Jesus que em alguns meses renovou a maneira de se jogar futebol por aqui. Hoje, o Flamengo é imbatível dentro de campo.

Fora dele, entretanto, alguns membros da direção parecem aqueles dirigentes da velha escola, que fazem tudo por seu clube, independentemente se vai passar por cima de A ou B. Com o time voando em campo graças a Jesus, é até fácil parecer imbatível também em manobras extracampo. Mas é perigoso.

E um passo em falso, como a cobrança de R$ 10 para se transmitir um jogo por empresa que não teve capacidade para entregar o produto, faz com que qualquer muro de proteção que o bom desempenho em campo exista desapareça. Torcedor ama o clube, não o dirigente. Taí uma lição a aprender.

Marcel Rizzo