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Marcel Rizzo


Fifa x Euro-América: eleição para Copa feminina escancara racha no futebol

Gianni Infantino, presidente da Fifa, e Alejandro Dominguez, da Conmebol - CARL DE SOUZA / AFP
Gianni Infantino, presidente da Fifa, e Alejandro Dominguez, da Conmebol Imagem: CARL DE SOUZA / AFP
Marcel Rizzo

Marcel Rizzo - Formado em jornalismo em 2000 pela PUC Campinas, passou pelas redações do Lance!, Globoesporte.com, Jornal da Tarde, Portal iG e Folha de S. Paulo, no qual editou a coluna Painel FC. Cobriu Copas do Mundo, Olimpíada e dezenas de outros eventos esportivos.

Colunista do UOL

25/06/2020 13h48

Classificação e Jogos

A eleição da Nova Zelândia e da Austrália como sedes da Copa do Mundo feminina de 2023, confirmada nesta quinta-feira (25) em votação dos membros do Conselho da Fifa, escancarou o racha na política do futebol mundial. De um lado a federação internacional, que tem a periferia do esporte sob seu comando, e dos outro as potentes confederações da Europa (Uefa) e da América do Sul (Conmebol).

Os europeus apoiaram em bloco a candidatura da Colômbia para receber a Copa feminina de 2023. Com os membros da América do Sul, os colombianos terminaram a eleição com 13 votos (o colombiano Ramon Jesurun não votou, assim como a neozelandesa Johanna Wood), insuficiente para bater Austrália e Nova Zelândia que tiveram os demais 22 votos — asiáticos, africanos, Américas do Norte e Central e até do presidente da Fifa, Gianni Infantino.

Europa e América do Sul unidas não foi surpreendente. Há alguns meses as duas confederações criaram grupos de força-tarefa para intercâmbio entre árbitros, por exemplo, mas principalmente para a criação de torneios em conjunto, de seleções e de clubes. Isso caiu mal em Zurique, na sede da Fifa.

A entidade que comanda o futebol teme perder o poder sobre torneios importantes, como o Mundial de Clubes por exemplo, e preparou um contragolpe: com auxílio principalmente do Real Madrid, desenhou um Mundial de Clubes turbinado com 24 equipes e premiações milionárias, com primeira edição programada para 2021, na China, mas adiada por causa da pandemia.

Há também preocupação da Fifa com perda do controle de torneios das seleções que, claro, tem a galinha de ovos de ouro da entidade que é a Copa do Mundo. A Uefa já tirou do papel sua Liga das Nações, uma espécie de Eurocopa com mais consistência (há até agrupamento por divisões), e há um esboço de um torneio maior que incluiria os sul-americanos.

Quem nunca ouviu que a Euro era uma Copa do Mundo sem Brasil e Argentina? Pois bem, essa Euro-América, se saísse do papel, colidiria diretamente com a Copa do Mundo, o que a Fifa não quer de jeito algum.

A eleição para sede da Copa feminina, primeiro torneio relevante a ser escolhido depois do início dessa "guerra-fria", em 2018, acabou escancarando que hoje o mapa mundi do futebol tem uma divisão.

Quatro candidaturas foram apresentadas para o torneio, mas duas ficaram pelo caminho. O Brasil cedeu espaço para a Colômbia porque não conseguiu garantias do governo federal e a saída permitiu a união da Conmebol em torno de uma candidatura única dentro do continente.

O Japão, enrolado com o cancelamento dos Jogos Olímpicos para 2021, também desistiu para dar força para Austrália e Nova Zelândia, e o restante da Fifa, pelo que vimos no resultado da votação, foi também por esse caminho. Inclusive os membros da Concacaf (Confederação das Américas do Norte e Central), entidade que normalmente tem bom relacionamento e divide competições com a América do Sul.

Os inspetores da Fifa que visitam os países para fazer o relatório que serve de base para os membros do Conselho realizarem a escolha não tiveram dúvidas em apontar a Austrália e a Nova Zelândia como mais bem preparados do que a Colômbia (e até o Japão, que ainda estava na disputa naquela altura). A nota baixa dos colombianos revoltou a Conmebol, que divulgou nota forte citando até discriminação contra a candidatura sul-americana. A Fifa reagiu, negando qualquer interferência e que o relatório dos inspetores é técnico.

A eleição seguiu o roteiro previsto: vitória dos países da Oceania (a Austrália, no mapa da Fifa, está na Ásia) com apoio de todos, menos América do Sul e Europa. Desde João Havelange, brasileiro que assumiu a Fifa em 1974, quem detém o apoio da periferia do futebol comanda a Fifa. Joseph Blatter seguiu essa estratégia e Gianni Infantino também vai pela mesma linha.
A ver qual será a reação de europeus e sul-americanos...

Marcel Rizzo