PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Marcel Rizzo


Cinco anos após renúncia de Blatter, futebol cria sua própria 'guerra fria'

Marcel Rizzo

Marcel Rizzo - Formado em jornalismo em 2000 pela PUC Campinas, passou pelas redações do Lance!, Globoesporte.com, Jornal da Tarde, Portal iG e Folha de S. Paulo, no qual editou a coluna Painel FC. Cobriu Copas do Mundo, Olimpíada e dezenas de outros eventos esportivos.

Colunista do UOL

02/06/2020 04h00

Classificação e Jogos

Seis dias depois de vários cartolas serem presos em um hotel em Zurique, e quatro depois de ser reeleito, Joseph Blatter renunciou à presidência da Fifa, e anunciou novas eleições, em 2 de junho de 2015, há cinco anos portanto.

Ele ainda ficaria mais alguns meses no cargo mais poderoso do futebol, até ser afastado em outubro pelo comitê de ética da própria Fifa acusado de corrupção. A entidade acabou presidida pelo vice Issa Hayatou até fevereiro de 2016, quando Gianni Infantino venceu a eleição e assumiu a cadeira que que ocupa até hoje.

O Fifagate, o escândalo de corrupção que levou dezenas de dirigentes à prisão ou à renúncia acusados de receberem propinas, gerou efeito em cascata em importantes confederações mundo afora. Houve trocas nas presidências de Fifa, Uefa, Conmebol e CBF, no que parecia ser uma limpeza no topo da cadeia do futebol. Na verdade, só parecia. A conferir:

- Na Fifa assumiu Gianni Infantino, secretário-geral da Uefa e ex homem-forte de Michel Platini, que até ser afastado junto com Blatter, em outubro de 2016, era apontado como favorito para comandar a Fifa durante a crise;

- Na Conmebol a presidência hoje é de Alejandro Dominguez, que trabalhou na federação paraguaia com Juan Ángel Napout, um dos três ex-presidentes da Conmebol que acabou preso no Fifagate;

- Na Uefa o comando é de Aleksander Ceferin, esloveno que foi por anos parte do corpo jurídico da Uefa, então presidida por Platini;

- Por fim, na CBF o hoje presidente Rogério Caboclo foi diretor executivo da gestão de Marco Polo Del Nero, que deixou o cargo acusado de receber propina de empresas para negociar direitos comerciais de torneios, o que ele nega. E o que levou à prisão de José Maria Marin, outro ex-presidente da CBF.

As mudanças, digamos, ocorreram em nomes, mas não em grupos. Os mesmos que comandavam o futebol no mundo, na América do Sul e no Brasil, de alguma maneira, permaneceram no topo. Houve, entretanto, alterações de procedimentos, e não poderia ser diferente com diversos cartolas presos.

A Conmebol, por exemplo, passou a divulgar seus balanços financeiros, algo impensável na era Nicolás Leóz, que comandou a confederação de 1987 a 2013. Hoje sabemos quanto entra de dinheiro na entidade para a organização da Libertadores ou da Copa América, focos no esquema de corrupção desnudado pelos serviços de investigação dos EUA.

Na CBF também há mais transparência em dados, mas ainda algumas questões a se modificar, como a eleitoral pro exemplo. Hoje as federações estaduais, bancadas pela CBF e que têm cartolas há mais de 20 anos no poder em alguns casos, continuam com peso maior do que os clubes nas eleições, o que torna quase impossível que o grupo no poder saia.

Clubes x seleções

Não sabemos como será o futebol pós pandemia do novo coronavírus, mas se mantiver o caminho que traçava até o fim de 2019 estaremos provavelmente nos próximos anos acompanhando um embate entre o calendário de seleções e o de clubes. A Uefa de Ceferin entendeu que sua galinha de ovos de ouro está nos times e a Fifa de Infantino percebeu que poderia perder terreno.

Por isso que nos últimos meses uma guerra fria se estabeleceu, de um lado sul-americanos e europeus, que projetam torneios conjuntos, e de outro a Fifa, com apoio de alguns poderosos clubes, como o Real Madrid. A corrida é para conseguir organizar os principais torneios do mundo, principalmente entre as equipes. A Fifa prometeu um Mundial com 24 clubes a partir de 2021, que distribuiria milhões aos participantes, mas a pandemia forçou a entidade a adiá-lo para data ainda incerta.

Para o Brasil, as mudanças num primeiro momento pareceram boas. Na Conmebol a influência da Argentina, que por anos teve o ex-presidente da AFA Julio Grondona, morto em 2014, como homem-forte, diminuiu, mas não significou que o Brasil ganhou terreno. Receberam espaço os chamados presidentes do pacífico, cartolas de federações como Colômbia, Equador e Venezuela, que foram inclusive o estopim para as denúncias de corrupção quando forçaram o fim dos contratos com o grupo do brasileiro José Hawilla.

Nos últimos cinco anos, o futebol mudou de mãos, mas os grupos dominantes continuam os mesmos. A ver até quando.

Marcel Rizzo