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Marcel Rizzo


Patrocínio: por que clubes como o Flamengo treinam sem saber quando jogarão

Presidentes de Vasco (Alexandre Campello) e Flamengo (Rodolfo Landim) com o presidente Jair Bolsonaro e um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro - Reprodução/Instagram Flávio Bolsonaro
Presidentes de Vasco (Alexandre Campello) e Flamengo (Rodolfo Landim) com o presidente Jair Bolsonaro e um de seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro Imagem: Reprodução/Instagram Flávio Bolsonaro
Marcel Rizzo

Marcel Rizzo - Formado em jornalismo em 2000 pela PUC Campinas, passou pelas redações do Lance!, Globoesporte.com, Jornal da Tarde, Portal iG e Folha de S. Paulo, no qual editou a coluna Painel FC. Cobriu Copas do Mundo, Olimpíada e dezenas de outros eventos esportivos.

Colunista do UOL

21/05/2020 14h00

Classificação e Jogos

Por que alguns clubes querem voltar a jogar o quanto antes? Porque precisam de dinheiro. Detentores de direito de transmissão, como a Globo e a Turner, cortaram parte das verbas de campeonatos como os Estaduais e o Brasileiro devido à paralisação do futebol pela pandemia do coronavírus.

Patrocinadores, que não estão com suas marcas aparecendo, já que não há jogos nem treinamentos, também retiveram valores de parcelas até tudo voltar ao normal. Teve clube faturando 30% a menos de sua receita comercial desde março. É muito.

Por que alguns clubes querem voltar a treinar o quanto antes? A resposta óbvia seria porque querem que seus atletas recuperem e mantenham o condicionamento físico e técnico, e trabalhar em casa não é a mesma coisa. Mas essa, talvez, não seja a resposta correta.

E aí chegamos a uma terceira pergunta: por que alguns clubes querem voltar a treinar se não há a menor ideia de quando os jogos voltarão? A resposta do condicionamento físico e técnico não se encaixa, já que não se sabe quando os campeonatos recomeçarão. Há dois fatores que explicam porque o Flamengo, por exemplo, colocou seus jogadores para trabalhar no campo do centro de treinamento praticamente de forma clandestina.

1) O Flamengo pressiona, dessa forma, outros clubes a voltarem a treinar. Não há nos regulamentos gerais da CBF ou das federações estaduais, ou nas regras específicas de campeonatos, qualquer menção à paridade em tempo de trabalho. Em ligas norte-americanas, como a NFL, as franquias só poderão voltar a trabalhar ao mesmo tempo. A ideia é que não haja vantagem para aquela que está em um estado em que a pandemia do coronavírus esteja mais controlada.

No Brasil não existe essa regra. Os clubes gaúchos já foram liberados a voltar a treinar, com aval do governo, no Rio o Flamengo chutou as recomendações oficiais e colocou seus jogadores em campo. Estarão mais bem preparados caso o Campeonato Brasileiro se inicie? Possível.

Por isso o movimento feito pelo Flamengo é uma jogada política. Ao voltar a treinar, tenta forçar um movimento em cadeia que, talvez, anteciparia a volta dos campeonatos, primeiramente o Carioca. O que agrada, e explica muito, a reunião de terça (19) entre os cartolas de Vasco e Flamengo e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), defensor árduo de que a bola volte a rolar agora para que o povo tenha distração durante a quarentena.

2) Retornamos ao dinheiro retido. Voltar a treinar não vai liberar a grana dos direitos de transmissão, mas pode antecipar outras receitas. Por exemplo, o acordo da Globo feito com os clubes para alguns dos Estaduais: em média, a emissora precisa pagar ainda 25% dos contratos dos torneios que foram paralisados. Dessa grana, como revelou o blog, 10% foi liberado no fim de abril, mas o restante será dividido 15% quando o torneio recomeçar e 75% quando terminar. Ou seja, treinar não adianta.

Mas e os patrocinadores? Esses podem sentir-se obrigados a reativar pagamentos, já que suas marcas voltarão, em tese, a aparecer durante os treinamentos. O movimento é político e visa um benefício financeiro. Os clubes precisam de dinheiro, mas será que este é o momento de colocar em risco a saúde de funcionários? O tempo vai dizer.

Marcel Rizzo