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Marcel Rizzo


Documento da Fifa mostra como elite quis esmagar emergentes após Copa de 70

Seleção Brasileira de 1970 é relembrada e exaltada constantemente                              - Reprodução/Instagram
Seleção Brasileira de 1970 é relembrada e exaltada constantemente Imagem: Reprodução/Instagram
Marcel Rizzo

Marcel Rizzo - Formado em jornalismo em 2000 pela PUC Campinas, passou pelas redações do Lance!, Globoesporte.com, Jornal da Tarde, Portal iG e Folha de S. Paulo, no qual editou a coluna Painel FC. Cobriu Copas do Mundo, Olimpíada e dezenas de outros eventos esportivos.

Colunista do UOL

20/05/2020 04h00

A Fifa guarda algumas relíquias em seu acervo e os estudos técnicos das Copas do Mundo com certeza são daqueles mais valiosos. Desde 1966, na Inglaterra, a federação internacional reúne figurões que fazem análises de vários aspectos dos Mundiais, como técnico, tático e de organização.

A maioria termina com algumas sugestões para melhorar o jogo em si, mas também o formato da competição, e o de 1970, no México (que completa 50 anos em 2020), é revelador. A elite do futebol, leia-se os europeus, sugeriu ao fim daquela Copa vencida pelo Brasil dar um pontapé nos países emergentes (africanos e asiáticos) — a ideia era que os "grandes", e o Brasil se colocava nesse patamar, tivessem vida mais fácil nas eliminatórias.

Isso fez com que a articulação feita pelo brasileiro João Havelange, então presidente da CBD (a CBF da época), com países asiáticos e africanos se fortalecesse. Havelange se tornaria presidente da Fifa em 1974 e oito anos depois, em vez de a Copa do Mundo ficar elitista, ele aumentou o número de participantes de 16 para 24 e, claro, deu mais vagas a continentes periféricos.

O estudo técnico da Copa de 1970 não deixa margem para interpretação. A sugestão de participantes daquele Mundial para melhorar o nível técnico dos jogos, com a desculpa de atrair mais torcedores e patrocinadores, era que os melhores times estivessem na fase final das Copas. E como fazer isso? Criar uma eliminatória mundial e não setorizada por continentes.

Havia o argumento de treinadores e dirigentes de algumas seleções (todas as ideias são anônimas, mas não é difícil identificar as digitais de ingleses e alemães) de que o modelo de qualificação para a Copa do Mundo era injusto. Ora, diziam, era muito mais difícil se garantir na fase final jogando entre os europeus do que na Ásia, América do Norte e Central ou Ásia.

A Copa de 1970 teve algumas particularidades. Pela primeira vez uma seleção africana e outra asiática ou da Oceania entraram diretamente. Um time africano, Marrocos, voltou a jogar o Mundial pela primeira vez após a Segunda Guerra — somente o Egito havia estado em uma Copa, a de 1934 na Itália, e quando as vagas eram preenchidas por convites. Israel, estado relativamente novo criado após a guerra, chegava à Copa com um time de garotos e classificado pela Ásia (hoje está filiado à União Europeia de Futebol).

Marrocos se classificou batendo Tunisia, Sudão, Nigéria e Senegal, e esqueça o cenário atual. No fim da década de 1960, o futebol africano era amador. Já Israel fez apenas quatro partidas para estar na Copa, ganhando de Nova Zelândia e Austrália. Havia também El Salvador, que entrou pela Concacaf que não teve seu time mais forte participando da eliminatória, o México, o país-sede já classificado.

Para os europeus, havia injustiça na formação dos 16 países que chegavam à fase final da Copa. Uns enfrentavam rivais amadores, ou jogavam pouco, enquanto outros travavam batalhas. Portugal, por exemplo, terceiro colocado na Copa de 1966 não se classificou para o México. O mesmo ocorreu com a Hungria, hoje coadjuvante no futebol mundial mas à época figurinha carimbada em Mundiais (e vice em 1954). Não era justo e isso precisava mudar.

Eliminatória mundial

A sugestão apresentada, e documentada no estudo técnico da Copa de 1970 finalizado alguns meses depois do Mundial, era simples: cada confederação faria um torneio (uma eliminatória da eliminatória) e apresentaria suas candidatas à Copa seguinte (1974 seria na Alemanha Ocidental), num total de 30 seleções — a Fifa definiria a quantidade de seleções por continente.

Essas 30 equipes seriam divididas em 15 grupos de duas seleções cada, em jogos de ida e volta. Quem ganhasse, estaria no Mundial — eram 15 vagas via eliminatórias, mais a do país-sede. Claro que esses jogos seriam divididos por critérios, digamos, de qualidade da seleção e não por região. Poderíamos ter Itália x Marrocos, ou Inglaterra x Israel.

Ou seja, era possível, dependendo do que de fato a Fifa regulasse, que não houvesse africanos ou asiáticos na fase final da Copa. Só europeus e sul-americanos, talvez um intruso de um ou outro continente. Talvez.

Veja, era outra época. Mas um dos argumentos usados para justificar essa ideia era que seleções emergentes receberiam nas eliminatórias em seus países times fortes, tradicionais, e isso ajudaria no desenvolvimento do esporte nessa região. Imagine o Brasil jogando na África, ou a Alemanha na Ásia? E a modernidade já chegara, com deslocamentos mais fáceis em aviões modernos, portanto isso não seria problema.

A história, claro, mostra que isso não prosperou. Foi, na verdade, o estopim da globalização do futebol. Em vez de elitizar, a Fifa de João Havelange a partir de 1974 a popularizou. Em 1982 o Mundial passou de 16 para 24 equipes, em 1998 de 24 para 32 e, a partir de 2026, serão 48. Hoje, cinco africanos se classificam diretamente, sem passar por qualquer repescagem.

Se as vagas foram democratizadas, as taças nem tanto. Desde 1970, seis seleções foram campeãs, todas da elite do futebol. Nenhuma fora da Europa ou da América do Sul. Nisso, ainda é preciso evolução. Com mais times, o nível técnico também caiu e, claro, houve casos de corrupção no futebol causados pela necessidade de mais e mais votos para vencer eleições. Nada é perfeito.

Marcel Rizzo