Está doendo demais, Galo!
POR MARCOS CALDEIRA*
Malditas sejam as rosas, pois elas continuam a derramar bom cheiro após tragédias monumentais. Conferi no meu jardim hoje cedo; as rosas não recolheram seu olor. Inacreditável, continuam exalando perfume. As rosas não fazem sentido neste mundo horrendo. Malditas, pisemos nelas!
Só agora começo a sair do estado de torpor, ainda não há fome nem sede, o transe é forte demais para chorar, não permite essa mecânica da fisiologia. Comer pra quê? Beber pra quê? Chorar pra quê? Tudo é inútil, vão e oco. A vida é ridícula.
O Atlético não perdeu ontem, o Atlético fracassou um fracasso fracassadíssimo, que já se integrou em meu organismo, virou sangue, pele, ossos. Meu corpo é hoje uma casa de fazenda demolida, com destroços cobertos de líquens e ramas de Melão-de-São-Caetano, "a hera de nossa ruína".
Perder daquele jeito, com um jogador a mais desde os 40 segundos do primeiro tempo, chafurdar no inferno dos dois gols, voltar a prometer o céu à torcida, com um gol aos 2 do primeiro tempo, e depois atirá-la novamente no braseiro do abismo máximo...
Só o Atlético sabe provocar incêndio no inferno. O Atlético acha que o inferno é pouco, o Atlético explode botijões de gás no inferno, o Atlético atira galões de gasolina no inferno. O Atlético é o inferno.
Sinto minhas carnes retalhadas, temperadas com cal e sol quente, tomando bicadas de galos azuis num ciclo que Dante não teve coragem de criar, por considerá-lo pesado demais.
Mas a vida precisa seguir, não é assim que se diz? Sigamos.
Vou neste momento por uma alameda silenciosa, observando flamboyants, em busca de ar puro. Falemos de crianças e cães. Deu, chega, basta!!! Nunca mais quero saber de fut...
Isso, falemos das crianças, como essa que já vai ali na frente, vou apertar o passo para vê-la de perto. É um menino de 7 anos, se equilibrando numa bicicleta, a primeira de sua vida.
Cena linda, uma criança, com toda a vida pela frente. Cabelos aos vento, short, tênis verde, carinha feliz...
Cheguei perto, agora o vejo com nitidez, como é lindo um menino, me comovo, sou pai de todas as crianças do mundo.
Lá vai o menino, ai, ai, meu Deus... Enfiado numa alvinegra CAMisa.
*Marcos Caldeira é jornalista e editor do jornal semanal "O TREM Itabirano".
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