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Reportagem

O futebol e a extrema-direita

POR ROBERTO JARDIM*

Quem acompanha futebol e seu entorno sabe que esse avanço da extrema direita na Europa não é recente. Parte dos times do continente têm torcidas que reverenciam o fascismo, o nazismo e outras filosofias segregacionistas e supremacistas.

O que se viu nos estádios e arenas nos últimos anos, com o crescimento dos atos racistas e outras manifestações nefasta, tem crescido nas urnas em diversos países, ligando o sinal de alerta na eleição parlamentar europeia. E uma das reações veio de dentro do gramado em plena Eurocopa, disputada na Alemanha.

No final de semana, dois craques da seleção mais "multicultural" da Europa, talvez aquela que mais tenha sido assim ao longo das décadas, mandaram o recado à população do seu país.

Assim como fizera a geração de Zinedine Zidane e Lilian Thuram no final da década de 1990, Kylian Mbappé e Marcus Thuram tentaram fazer suas pernas amplificarem suas vozes.

Craques em campo, pediram a seus compatriotas para votarem contra a ultradireita de Marine Le Pen.

E os parentescos se repetiram.

Antes da França conquistar o Mundial em 1998, o pai de Marine, Jean-Marie Le Pen, pedia uma seleção mais "francesa", ou seja, mais branca. Entre os porta-vozes do time, o lateral Lilian bateu de frente com o extremista.

Ele e seus colegas negros e descendentes de argelinos se recusaram a cantar a Marselhesa, o belo hino do país. Também mostraram em campo que eram tão franceses como qualquer outro.

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Agora, o primeiro a falar foi Marcus, filho de Lilian. Tão bom com a bola quanto com a voz como seu progenitor.

"A situação é muito, muito grave. Ficamos todos um pouco chocados. Esta é a triste realidade da nossa sociedade hoje. Há mensagens transmitidas todos os dias na televisão para ajudar esta festa [a extrema direita] a passar. Devemos dizer a todos para irem votar. Como cidadãos, sejam vocês ou eu, devemos lutar diariamente para que isto não volte a acontecer", declarou Marcus, apesar de a UEFA proibir manifestações políticas em meio à competição.

Criticado, foi defendido por um dos maiores nomes da atualidade do futebol francês e mundial.

"Espero que façamos a escolha certa e tenhamos orgulho de vestir esta camisa novamente no dia 7 de julho. Compartilhamos os mesmos valores de Marcus. Estou com ele. Para mim, ele não foi muito longe. Estamos num país onde há liberdade de expressão. Ele deu a sua opinião e eu estou do lado dele", arrematou Klylian.

O camisa 10 acrescentou. "Você tem que saber resolver as coisas e ver suas prioridades. Somos cidadãos acima de tudo, não devemos estar desligados do mundo. Estamos numa situação sem precedentes".

E ainda completou: "Quero me dirigir a todos os franceses e, em particular, à geração jovem. Vemos que os extremos estão às portas do poder. Temos a possibilidade de mudar tudo".

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*Roberto Jardim é jornalista.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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