Futebol pelo mundo

Futebol pelo mundo

Só para assinantesAssine UOL
ReportagemEsporte

Ex-Palmeiras salva time de rebaixamento em país onde 'não' quer dizer 'sim'

Perguntar a um torcedor do Hebar Pazardzhik, da Bulgária, se o brasileiro João Cesco fez uma boa temporada no clube pode levar a uma resposta intrigante: com um sorriso no rosto, o fã empolgado moveria a cabeça de um lado ao outro — um gesto universal de "não".

Soaria estranho porque o zagueiro, que passou pelas categorias de base de São Paulo e Palmeiras, salvou a temporada do time. Na última rodada do Grupo de Descenso do Campeonato Búlgaro, o Hebar perdia por 1 a 0 para o Etar, quando Cesco marcou o gol de empate e mudou o rumo da partida — o time venceu por 3 a 1 e se salvou.

O que explicaria, então, a resposta negativa? Acontece que o gesto universal de "não" é menos universal do que parece. Na Bulgária, em resumo, o "não" com a cabeça quer dizer "sim", e vice-versa.

Antes de ser o herói da permanência do time, Cesco falou com o UOL sobre o início da carreira nos gigantes de São Paulo, sobre como a pandemia o impediu de jogar na Itália, a adaptação a um campeonato desconhecido na Bulgária; e claro, contou boas histórias em que queria dizer que "não", mas acabou falando que "sim".

Leia abaixo os principais trechos da entrevista com João Cesco:

João Cesco durante passagem pelo Palmeiras: campeonato na Itália mudou destino
João Cesco durante passagem pelo Palmeiras: campeonato na Itália mudou destino Imagem: Arquivo pessoal

Base do São Paulo e do Palmeiras

"Comecei a jogar futebol desde criança, passei em um teste no São Paulo e com 14 anos eu estava alojado dentro de Cotia. Fiquei lá por pouco mais de dois anos e tive uma chance de ir para o Palmeiras, que estava numa ótima fase, ganhando muitos títulos. Pelo Palmeiras, fui a um campeonato na Itália e isso abriu portas para mim. Tive uma chance de ir jogar no Hellas Verona por 7 meses".

Pandemia e sonho interrompido

"Passei essa primeira fase fora do Brasil, de adaptação ao Hellas Verona, mas daí veio a pandemia, o meu contrato acabou e não renovaram. Voltei para o Brasil, fui para a Chapecoense e foi lá que consegui subir para o profissional, tenho muito carinho pelo clube".

Continua após a publicidade
Cesco, na época da Chapecoense: três anos e estreia como profissional
Cesco, na época da Chapecoense: três anos e estreia como profissional Imagem: Divulgação/Site oficial da Chapecoense

De Chapecó para a Bulgária

"Comecei a fazer meus primeiros minutos no profissional da Chapecoense. E fui muito feliz, tive treinadores que me apoiaram, que confiam em mim. Eu consegui estrear contra o Avaí, num clássico, e saímos com a vitória lá dentro da casa deles e então já foi uma baita estreia para mim. Foi na Chapecoense que ganhei confiança e cresci muito. Daí começamos a procurar uma oportunidade na Europa e apareceu essa da Bulgária, vi com bons olhos e meus empresários também".

Adaptação à Bulgária

"A língua búlgara é muito difícil, e o alfabeto também é muito diferente, então pra aprender a falar é só se você for pra estudar e tiver alguém pra ensinar. Eu optei por aprender inglês, que é muito importante em todos os lugares. Tenho um companheiro de clube que é de Gana, outro da Áustria, e pratico com eles. No começo eu só escutava, agora já falo bastante. Tem outras coisas que é preciso adaptar, mas com o tempo fui aprendendo. O mais importante é abrir a mente para aprender coisas novas".

Culinária búlgara

"Graças a Deus aqui eu não tive problema nenhum com a comida, com a alimentação. Aqui a culinária é muito boa, até me surpreendeu. Tem arroz, que eles fazem mais como risoto, tem macarrão, a carne é um pouco diferente, mas em geral é tranquilo. É uma comida muito bem temperada. No clube, eles ficam sempre atentos, medindo a porcentagem de gordura, com acompanhamento de nutricionista".

Continua após a publicidade

Como é a liga local

"Confesso que a Liga Búlgara me surpreendeu bastante. Quando eu cheguei aqui eu não conhecia muita coisa, mas quando o campeonato começou eu me surpreendi positivamente. A maioria dos times têm estrangeiros, vários tem brasileiros, alguns com experiência em clubes grandes do Brasil. Para me comunicar em campo, eu aprendi algumas palavras básicas do búlgaro, tipo "esquerda", "direita", "ladrão"."

"Não" quer dizer "sim"

"Um dia eu fui no supermercado aqui, aí a moça do caixa perguntou se eu queria a sacola. Aí eu fiz assim com a cabeça, pra falar que "não", e a mulher começou a me dar sacolas. Aí eu entendi que tinha alguma coisa diferente. Uns dias depois, pedi uma carona pra um colega de clube, e o cara fez com a cabeça que "não". Daí eu pensei "pô, então beleza". Mas daí o cara apareceu com o carro depois me chamando. No começo é difícil porque é algo muito presente no dia a dia, agora eu já peguei bem".

Planos de futuro

"Meu grande objetivo foi chegar aqui, foi vestir a camisa do time que confiou no meu trabalho. Eu queria chegar e conseguir jogar muitos minutos, isso tem sido muito importante para mim. Ainda não estou pensando em longo prazo, estou deixando acontecer e trabalhando forte".

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Deixe seu comentário

Só para assinantes