Futebol pelo mundo

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ReportagemEsporte

Por que a Inglaterra é favorita na Euro mesmo sem ganhar nada há 58 anos

A frase mais famosa da história da seleção inglesa não foi dita por jogador, técnico ou dirigente. Ela é de Kenneth Wolstenholme, narrador da BBC na final da Copa do Mundo de 1966.

Na reta final da prorrogação contra a Alemanha Ocidental, o jornalista disse: "Muita gente está entrando no campo, eles acham que já acabou?" No lance seguinte, Geoff Hurst faz o quarto gol inglês, e com o placar de 4 a 2, o narrador arremata. "E agora acabou, mesmo".

A frase está na cabeça de todo inglês que ama futebol, mas cada vez menos deles ouviram aquela narração ao vivo. Lá se vão 58 anos, e desde então a Inglaterra não conquistou um único título de seleções masculinas adultas. É o maior jejum entre todas as campeãs mundiais.

Ainda assim, entre torcedores e especialistas, a Inglaterra é apontada como favorita ao título da Eurocopa-2024 que começa nesta sexta-feira, na Alemanha. As casas de aposta refletem o mesmo otimismo. Das 27 maiores empresas do ramo no mundo, todas colocam os ingleses como aposta de menor retorno para o título: ou seja, eles são oficialmente os favoritos.

Entender os motivos que levam a esse cenário passa por analisar a própria seleção inglesa, um possível caminho até a final, os adversários e outros contextos como a força da Premier League e a qualidade dos treinadores que passaram pela Inglaterra nos últimos anos.

Bellingham é um dos candidatos à Bola de Ouro: euro pode ajudar
Bellingham é um dos candidatos à Bola de Ouro: euro pode ajudar Imagem: Julian Finney/Getty Images

A seleção é realmente forte

O ponto principal para o favoritismo inglês é óbvio: a qualidade do elenco, principalmente no meio-campo e ataque. A geração que caiu nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022 está mais madura e ganhou protagonismo nos maiores palcos do futebol europeu.

A estrela da companhia é Jude Bellingham, que aos 20 anos tornou-se peça fundamental no Real Madrid campeão da Champions League. Mas tem muito mais: Phil Foden passou de coadjuvante a estrela no Manchester City, e o mesmo aconteceu com Cole Palmer.

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Na referência ofensiva, Harry Kane chega como Chuteira de Ouro do futebol europeu, com os 36 gols marcados pelo Bayern de Munique na Bundesliga. É a grande chance do artilheiro finalmente conquistar um título na carreira.

Os ingleses ainda têm Declan Rice comandando o meio-campo e Bukayo Saka para dar velocidade às jogadas. Ambos foram fundamentais na campanha que quase devolveu o Arsenal ao topo da Premier League na temporada 2023-24.

Foden é uma das esperanças da Inglaterra para chegar ao título
Foden é uma das esperanças da Inglaterra para chegar ao título Imagem: Divulgação/Man City

O grupo e o cruzamento ajudam

A Inglaterra está no Grupo C, ao lado de Dinamarca, Sérvia e Eslovênia. Os ingleses ocupam a 4ª posição no Ranking da Fifa e passaram invictos pelas Eliminatórias, enquanto os rivais sofreram duas derrotas cada.

Campeã da Euro em 1992, a Dinamarca é quem tem o melhor ranking da Fifa dentre os rivais, ocupando a 21ª posição. A Sérvia, que tem tradição ínfima no torneio como seleção independente é a 33ª, e a Eslovênia ocupa o 57º posto, entre Paraguai e Iraque.

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Caso confirme o favoritismo e passe no primeiro lugar do grupo, a Inglaterra enfrentará uma seleção terceira colocada, vinda dos grupos D, E ou F; assim, ela fugiria de um embate com um segundo colocado de chave, ou com o terceiro do grupo B, que poderia ser Espanha, Itália ou Croácia.

Davide Fratessi comemora com Jorginho gol da Itália em amistoso
Davide Fratessi comemora com Jorginho gol da Itália em amistoso Imagem: Isabella BONOTTO / AFP

Adversárias estão em transição

Enquanto a Inglaterra tem uma seleção que parece uma versão 3.0, depois de perder o título da Euro-2021 em Wembley e da Copa-2022, a maioria dos rivais ainda tenta se encontrar.

Dona da casa, a Alemanha ainda procura a fórmula para misturar a experiência de Toni Kroos e Joshua Kimmich à juventude e Florian Wirtz e Jamal Musiala.

A Espanha, três vezes campeã do torneio europeu, ainda tenta ajustar o estilo de posse de bola à capacidade de drible e velocidade de seus dois principais atacantes: Lamine Yamal e Nico Williams, ambos pontas com potência nos duelos de 1x1.

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Atual campeã, a Itália vive uma situação ainda mais complicada, com a debandada dos veteranos e um processo de renovação complicado, que já custou à equipe uma vaga na Copa de 2022.

A exceção é a França, atual vice-campeã do mundo, que chega com Kylian Mbappé como estrela e capitão, tendo a seu lado a qualidade de um elenco que entra no debate de mais forte do mundo.

Jurgen Klopp e Pep Guardiola conversam durante a partida entre Manchester City X Liverpool pelo Campeonato Inglês
Jurgen Klopp e Pep Guardiola conversam durante a partida entre Manchester City X Liverpool pelo Campeonato Inglês Imagem: Matthew Ashton/AMA/Getty Images

A Premier League dita tendências

Ter uma liga doméstica forte também é um trunfo dos ingleses na luta pelo título que não vem há 58 anos: 24 dos 26 convocados atuam na Premier League, em contato com algumas das equipes mais poderosas do mundo.

A Liga Inglesa é, também, a casa de alguns dos melhores e mais criativos técnicos dos últimos anos —Pep Guardiola e Jurgen Klopp são os dois exemplos, mas não os únicos.

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Jogando na Premier, os jogadores ingleses têm contato com as novidades táticas e de treinamento em primeira-mão. Em entrevistas, o técnico Gareth Southgate costuma dizer

Mas e aí, vai voltar pra casa?

Em 1996, antes da Eurocopa realizada na Inglaterra, a banda Lightning Seeds gravou a música "Three Lions", que ficou famosa pelo refrão que dizia que "o futebol está voltando para casa". Não voltou: a Inglaterra caiu na semifinal contra a Alemanha, nos pênaltis.

Desde então, já são 28 anos em que os ingleses resgatam a canção a cada grande evento. Ela já se tornou piada entre os adversários - quando a Itália venceu a final da Euro-2021, em pleno Wembley, o "It´s coming home" virou "It´s coming Rome", com alusão à cidade de Roma, capital italiana.

A letra da canção cita grandes lances do futebol inglês, como um desarme de Bobby Moore sobre Jairzinho, na Copa de 1970, ou o gol de Gary Lineker na semifinal da Copa de 1990, contra a Alemanha.

Caso a Inglaterra finalmente confirme o favoritismo e vença, um verso só será pouco. Se o futebol "voltar pra casa", nem uma música inteira será o bastante.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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