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Dois lados do Monstro: como Thiago Silva é ídolo na Europa e alvo no Brasil

No centro do gramado do Stamford Bridge, Thiago Silva olhava para as arquibancadas emocionado. Parte da torcida do Chelsea erguia uma bandeira em homenagem ao zagueiro, outros cantavam; quem tinha a voz embargada apenas aplaudia.

Ver tamanha reverência de um clube da Premier League por um zagueiro, brasileiro e que pouco fala o idioma inglês é incomum. Como incomum também foi o caminho de Thiago Silva no clube: chegou com um contrato de uma temporada. Ficou cinco, conquistou um título da Champions League, um Mundial de Clubes e os corações da exigente torcida dos Blues.

A catarse vivida no adeus ao clube londrino, no dia 19 deste mês, é um exemplo da adoração que Thiago Silva tem na elite do futebol europeu. No continente onde jogou no auge da carreira, o brasileiro é unanimidade. Antes de conquistar a Inglaterra, ele já era referência na Itália, na França e até na Espanha, onde nunca jogou.

11.mar.2012 - Zagueiro brasileiro Thiago Silva tenta o chute durante o confronto do Milan com o Lecce, em que seu time venceu por 2 a 0 pelo Campeonato Italiano
11.mar.2012 - Zagueiro brasileiro Thiago Silva tenta o chute durante o confronto do Milan com o Lecce, em que seu time venceu por 2 a 0 pelo Campeonato Italiano Imagem: AFP PHOTO / OLIVIER MORIN

"A imagem de Thiago Silva na Itália está muito relacionada ao que ele fez no Milan: um dos melhores zagueiros de sua época", resume Rafaelle Riverso, jornalista do Tuttosport.

Na galeria de grandes defensores da história do Milan, o brasileiro ocupa um lugar de destaque que, segundo italiano, poderia ser ainda maior. "Talvez o fato de ter saído da Série A para jogar na França no auge da carreira tenha impedido que ele desse o salto final, para se tornar um dos maiores ídolos do clube em todos os tempos", afirma Riverso.

Só que, em Paris, Thiago Silva também foi ídolo, como explica Florent Torchut, da France Football. "É um grande zagueiro, sempre bem posicionado, sabendo usar o físico para ganhar os duelos, com muita personalidade. No PSG ele foi criticado algumas vezes pelas eliminações na Champions, principalmente na "remontada" do Barcelona, mas pessoalmente não concordo", afirma.

Apesar de não ter conquistado o título mais cobiçado pela equipe parisiense, o brasileiro deixou um legado. Uma influência que ainda hoje inspira jogadores do clube e da seleção — como o zagueiro Lucas Beraldo. "Ele tem tudo a ver com o PSG, é um motivo de inspiração pra mim. Eu assistia ele jogando aqui com o Marquinhos e os dois eram um modelo a seguir", disse o defensor ao UOL.

Até mesmo onde não jogou, Thiago Silva ganhou admiradores. O Barcelona tentou contratá-lo pelo menos duas vezes, mas o PSG travou qualquer possibilidade de transferência. Nos bastidores do clube catalão, o brasileiro sempre foi bem avaliado por diretores e técnicos.

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O zagueiro brasileiro Thiago Silva, do PSG
O zagueiro brasileiro Thiago Silva, do PSG Imagem: Geoffroy VAN DER HASSELT / AFP

"A imagem que se tem de Thiago Silva na Espanha é de um dos melhores zagueiros do século 21. Um jogador que tem todas as características de um defensor moderno: joga bem nas duas áreas, é fisicamente imponente, habilidoso, liderança. Está entre os dez melhores zagueiros deste século, sem nenhuma dúvida", afirma Juan Irigoyen, editor do El País.

O cenário de admiração, homenagem e legado é bem diferente do que acontece no Brasil. No país onde nasceu, Thiago Silva é criticado, principalmente, por uma cena durante a Copa do Mundo de 2014: o choro durante a decisão por pênaltis contra o Chile.

"Os europeus têm uma visão mais objetiva. E nós, brasileiros, vemos muitas coisas pelo lado moral. É essa visão de mundo que faz muita gente pensar que ele não teve um comportamento adequado na Copa de 2014. E isso acaba estigmatizando uma carreira que é vitoriosa", afirma Chico Vereza, diretor do documentário "Monstro", sobre a carreira do zagueiro, ainda em fase de produção.

O nome do documentário mostra essa dicotomia entre as duas visões. "O Monstro é o cara extraordinário, que vai chegar aos 40 anos jogando em alto nível; e o monstro estigmatizado pela torcida brasileira", explica Vereza.

Thiago Silva chora em 2014, durante jogo contra o Chile na Copa do Mundo
Thiago Silva chora em 2014, durante jogo contra o Chile na Copa do Mundo Imagem: GUSTAVO ANDRADE/AFP

Em entrevistas e conversas privadas, Thiago Silva não esconde a frustração pelas críticas. Sempre que o assunto aparece, ele deixa claro que não era um dos cobradores na disputa contra o Chile e que teve uma reação humana, em um momento de tensão.

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"No Brasil, se você não ganhar uma Copa, parece que não ganhou nada. Há muitos jogadores históricos do futebol brasileiro que não foram campeões mundiais e ficaram marcados. Só que ganhar uma Copa do Mundo é muito difícil, principalmente nos tempos modernos, em que o futebol europeu está mais forte e dominou a cena mundial", afirma Juan Irigoyen.

"Na Argentina há um caso semelhante: Higuaín. Um jogador idolatrado na Europa, mas muito criticado em seu país por não vencer com a seleção", acrescenta o editor do El País, citando o atacante com passagens marcantes por Real Madrid, Napoli e Juventus.

Para Florent Torchut, da France Football, a cobrança dos brasileiros com Thiago Silva chega a um nível tão intenso que muitas vezes ele paga por erros que não cometeu.

"No Brasil, há quem o associe com a derrota por 7 a 1 para a Alemanha, mas ele não jogou naquela partida. Isso é muito estranho", diz o jornalista francês. De fato, embora seja condenado como um vilão daquela Copa do Mundo, Thiago Silva não jogou na maior derrota do futebol brasileiro — ele estava suspenso.

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Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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