Casagrande

Casagrande

Siga nas redes
Só para assinantesAssine UOL
OpiniãoEsporte

Era fácil amar Marcelo Fromer e eu tive esse privilégio

Temos situações que nos marcam para o resto da vida. Há 23 anos, o dia 13 de junho para mim é um daqueles dias que eu gostaria que nunca tivesse acontecido. Além do meu sofrimento, presenciei a dor de muita gente. Bom, vou contar a história de 13 de junho de 2001.

Tudo começou no dois dias antes, 11 de junho de 2001, uma segunda-feira de muita euforia e empolgação. Eu e o meu amigo Marcelo Fromer, guitarrista dos Titãs, iríamos estrear o nosso programa chamado "Piloto" na rádio Transamerica, depois que saímos da 89, a rádio rock de São Paulo. Nós dois inventamos o estilo do programa, falando de rock and roll e futebol numa rádio. A dinâmica era a seguinte: eu queria falar de rock com ele e o Marcelo queria ficar falando de futebol comigo. E aí surgiu essa ideia de um programa sobre rock e futebol. A gente se encontrava todos os finais de tarde, às 18h, para beber algo e conversarmos aqui num restaurante tradicional da cidade, famoso pela sua feijoada. Tínhamos uma mesa nossa no Bolinha e ali conversávamos e gravávamos todos os papos que tínhamos.

Marcelo, Luciano Jr e eu na época da 89, batendo uma bola
Marcelo, Luciano Jr e eu na época da 89, batendo uma bola Imagem: Reprodução/Arquivo pessoal

Pois bem. Nesse 11 de junho de 2001, iríamos começar o nosso programa das dez até a meia-noite, com convidados e, principalmente, com total liberdade para tocarmos todos os estilos de música. Cheguei na rádio cedo, liguei para ele, que me falou que iria dar uma corridinha e umas 21h estaria na rádio.

O tempo foi passando e o Marcelo não chegava, começamos sem ele. Durante o programa, íamos zoando, falando assim: "E aí Marcelo? Se perdeu? Esqueceu a guitarra? Quer que eu te mande um guia turístico?" E foi assim, estranhamente até fim do programa. E nada do Marcelo. Saí junto com o André Henning e fomos para a padaria Real, ao lado da MTV, que era o point da moçada daquela época, quando a MTV bombava e todos iam para lá.

Quando cheguei, o meu celular tocou e era o Nando Reis: "Fala Casão, beleza?" Respondi: "Tudo beleza." Ele continuou: "Onde você está?" Respondi: "Na Real, Nando." Ele continuou: "Você viu o Marcelo hoje?" Aí disse a ele: "Não, inclusive hoje estreou nosso programa e ele não apareceu." Aí ele me explicou: "Casão, um cara foi atropelado e está no Hospital das Clínicas e dizem que pode ser o Marcelo, você poderia ir lá dar uma olhada porque nós estamos no Rio." Respondi: "Claro Nando, vou nesse momento."

Eu e o André fomos voando para o hospital. Quando cheguei, só tinha uma pessoa que o médico não havia deixado entrar porque não tinha autorização. Mas eu tinha e entrei. Nesse momento começou uma tristeza enorme, mas apesar do estado que o encontrei, não tinha nenhuma noção da gravidade. Fiquei muito assustado. Ele não tinha nenhum machucado aparente, mas senti que não estava legal. Liguei para o Nando de volta: "Nando, é o Marcelo sim." Ele ficou desesperado e perguntou qual era a situação. Respondi assim: "Nando, vocês precisam vir para cá porque estou sozinho e muito assustado."

Bom, com o passar do tempo as pessoas foram chegando. O primeiro foi o Serginho Groisman, amigo de todos nós e muito próximo a mim e ao Marcelo. Daí em diante foi uma tristeza só. Ficamos direto no hospital entre a madrugada do dia 11, durante o dia e a noite do dia 12. Muita gente, porque o Marcelo era querido demais por todos.

Marcelo era meu melhor amigo naquela época. Estávamos sempre juntos. Aquele cara por quem eu tinha uma amor enorme, estava num quarto onde ninguém poderia entrar, a não ser os familiares e os Titãs. As únicas notícias eram através do relatório atualizado durante as coletivas do médico.

Por volta da 1h da manhã do dia 13, a Cuca, sua irmã, me chamou e disse assim: "Casão, você quer ver o Marcelo, né?" Respondi: "Quero muito Cuca." Aí ela me explicou: "Olha, ele não resistiu. Ainda vamos atualizar a imprensa e as pessoas, mas ele gostava muito de você e estamos vendo a sua agonia e vontade de vê-lo, vem comigo." Então descemos até um lugar no hospital e fiquei alguns minutos com ele. Peguei na sua mão, admirei a sua beleza espiritual, falei algumas coisas, dei um beijo nele e saí.

Continua após a publicidade

No dia 13 de junho de 2001 foi confirmado o falecimento do meu lindo amigo Marcelo Fromer.

Fiquei muito machucado. Sou uma pessoa empática, eu me coloco sempre no lugar do outro e, por isso, a minha dor ia aumentando. Não foi fácil ver os filhos pequenos dele. Max e Alice eram crianças e ele adorava os filhos, falava o tempo todo como eles eram espertos, inteligentes e o quanto era legal conversar e ficar com eles.

Não foi fácil redigir esse texto. Conforme eu escrevia, vinham todas imagens na cabeça. Eu tenho uma memória incrível e fotográfica. Revivi todos os momentos como se fosse um documentário sendo projetado, só para mim, através da minha mente, como se fosse uma sala de cinema exibindo todos os fatos em 3D.

Essas são as minhas tristes lembranças do 13 de junho de 2001, que foi uma quarta-feira com céu azul e ensolarado. Muita saudade do meu amigo, mas em compensação vejo como o Max Fromer e a Alice Fromer estão lindos, sendo pessoas legais e talentosas.

Esse texto não merece um título mas uma declaração de amor. Eu amo muitas pessoas independentemente do gênero. Porque eu amo o ser humano e o Marcelo Fromer foi uma das pessoas mais amáveis que conheci. Amá-lo foi um sentimento instantâneo e espontâneo. Marcelo foi um dos grandes amigo e amor da minha vida e me orgulho muito de ter tido esse privilégio.

Beijo, Marcelo.

Continua após a publicidade
Luciano Jr, eu, Marcelo Fromer, Osmar Santos e o Victor, filho do Osmar
Luciano Jr, eu, Marcelo Fromer, Osmar Santos e o Victor, filho do Osmar Imagem: Reprodução/Arquivo pessoal

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Deixe seu comentário

Só para assinantes