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Antero Greco


Fla desperta brios e ódio em rivais do Rio

Gustavo Henrique e Pedro Rocha, dois reforços do Flamengo para 2020 - Thiago Ribeiro/ Agif
Gustavo Henrique e Pedro Rocha, dois reforços do Flamengo para 2020 Imagem: Thiago Ribeiro/ Agif
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

31/01/2020 04h00

O Flamengo nada de braçada no futebol brasileiro e tem imensa vantagem sobre os principais oponentes no Rio. Fatos irrefutáveis. Pelo visto, o abismo continuará por bom tempo, sobretudo em relação aos "desafetos" locais.

A ascensão rubro-negra desperta reações, boas e ruins. As positivas se referem às tentativas de mobilização de cartolas da concorrência, com ajuda de torcedores, para tirarem seus clubes do marasmo e buscarem alternativas de crescimento. A lamentar estão atitudes provocativas e impiedosas que têm como mote os meninos mortos no Ninho do Urubu.

Prefiro destacar o lado saudável da rivalidade. Fluminense, Botafogo e Vasco têm sérios problemas financeiros, e isso não é de hoje. Padecem por falta de recursos, por heranças malditas, por crises políticas - tudo desemboca em frustração no campo.

Estou colocando todos num mesmo balaio, por força de expressão, mas claro que há diferenças pontuais. No entanto, o resultado frustrante é o mesmo. O que o trio tem feito de bom, diga lá, caro amigo? Nada de relevante acontece nas Laranjeiras, em São Januário, em General Severiano. No máximo, têm lutado para ficar na elite do Campeonato Brasileiro.

Aos poucos, surgem iniciativas para aplaudir. A largada veio com a mobilização dos fãs do Vasco, no finalzinho de 2019, que o levaram a assumir a liderança no quesito sócio-torcedor. O clube fechou o ano com 179.623 filiados, ou com 185.404 sócios no total.

Muitas das adesões ficaram para as categorias mais baratas do sócio-torcedor. Talvez não virem uma montanha de dinheiro. Porém, se houver fidelidade, é fonte boa para a direção planejar orçamento para o futebol.

O reflexo se vê na presença de público nos estádios: contra o Bangu, em casa, dias atrás, foram 18.361 pagantes, 73,6% deles na categoria de sócio-torcedor. E, segundo a imprensa carioca, mais da metade nos setores mais caros. A grana ajuda na construção do CT na Zona Oeste da cidade.

O Fluminense sonha com algo parecido. O presidente Mario Bittencourt revelou, nesta quinta-feira (30), que o projeto tricolor entrará em vigor na metade de fevereiro. Haverá carnês de 10 a 300 reais. Uma faixa especial, de 40 reais, será reservada para quem comprovar baixa renda (de R$ 1.500).

Por esse valor, o sócio poderá ver os jogos em que o time for mandante. Uma maneira de atrair freguesia e não elitizar demais, como aconteceu com alguns clubes importantes do Brasil. O Flu tem o projeto Laranjeira XXI, que prevê modernização do tradicional estádio. Seria opção para compensar os custos altos de jogar no Maracanã.

O Botafogo anda mais tímido, porém tem a vantagem de controlar o Engenhão, estrutura muito mais moderna em relação às dos outros dois, e ainda negocia patrocínio rentável. E sonha com mecenato, acenado meses atrás com a possibilidade de os irmãos Moreira Salles (Itaú/Unibanco) injetarem dinheiro vivo no futebol.

Fluminense, Vasco e Botafogo têm camisa, história, taças, público no Brasil todo. Portanto, contam com apelo, são viáveis do ponto de vista econômico. Antes, precisam dar uma chacoalhada geral na administração, peça-chave se quiserem levantar voo e fazer sombra ao Flamengo. Eis a parte mais difícil.

Para encerrar o papo: triste, inadmissível torcedores rivais do Flamengo entoarem cantos provocativos usando a tragédia que levou 10 jovens em 2019. Não honra a memória dos mártires rubro-negros gritar "Time assassino!" Isso não é prova de solidariedade e empatia com a dor dos familiares, mas só manifestação rasteira de ódio e intolerância.

Sim, evidentemente, que o Flamengo tenha, ao final do processo, a postura correta, altiva, humana, de ressarcir (por bem ou por decisão judicial) um pouco do que representa para parentes a perda dos meninos. Tragédia do início ao fim.

Antero Greco