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Antero Greco


Se o modelo do Bragantino der certo, o futebol ganhará

Artur é anunciado como reforço do Red Bull Bragantino - Divulgação
Artur é anunciado como reforço do Red Bull Bragantino Imagem: Divulgação
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

17/01/2020 04h00

Há curiosidade em torno do que o Bragantino, agora em parceria com a Red Bull, venha a apresentar na elite paulista e sobretudo no retorno à Série A do Brasileiro. Ele desponta como ponta de lança de uma experiência que não é nova por aqui, mas que pode indicar rumos para clubes tradicionais que vivem entre momentos de euforia e de depressão profunda, que lutam entre a subsistência ou o desaparecimento.

A largada deixou boa impressão e revelou estratégia profissional. Para início de conversa, a empresa de energético colocou grana razoável para investimento na formação de elenco. Quer dizer, dinheiro bom pra caramba (R$ 200 milhões) para os parâmetros de um time pequeno. Pensando melhor: dinheiro pra chuchu até para padrões de times de grandes centros...

O interessante está na ressalva de que não busca resultados imediatos. Oficialmente, o projeto prevê aprimoramento gradual do grupo e saltos maiores só em médio ou longo prazos, como disputa da Libertadores em três ou quatro anos. A ordem é não ter pressa para o retorno. Será?

Se mantiver essa postura, já fará diferente de outros que se aventuraram por terreno semelhante e ganhará o selo de seriedade administrativa e esportiva. A RB tem em seu favor as experiências nos EUA, na Áustria e na Alemanha, onde mantém equipes de futebol há alguns anos, fora as investidas em automobilismo e em outros esportes.

Enfim, não parece ser como aqueles oportunistas que aparecem, fazem barulho e, quando somem, deixam terra arrasada. O Bragantino não merece isso.

O que me deixa com uma ponta de desconfiança são episódios anteriores, o mais emblemático o do Paulista, de Jundiaí, que chegou até a chamar-se Etti (uma marca de produtos alimentícios) na época em que pertenceu à Parmalat, nos anos 1990.

A mudança de nome veio porque gênios de marketing achavam que o nome Paulista (ligado a antiga estrada de ferro de São Paulo) poderia ser associado a marca de leite concorrente da multinacional italiana... O Paulista hoje se mantém com muito suor.

Sem contar, também, as gestões de "empresários", modalidade mais arraigada pelo Brasil afora. Gente de olho em venda de jogadores arrenda um clube, enche de atletas sob sua custódia e trata só de fazer dinheiro. Quando a fonte seca, cai fora sem nenhum pudor e sem nenhum legado.

Se não houver ruído no Bragantino (e sabemos como é complicado conciliar com métodos de lideranças locais), essa parceria pode ser estimulante e abrir portas para outras agremiações, muitas até bem mais populares e vencedoras do que a turma de Bragança. Pode sair do Interior e ganhar o País.

Faz muito tempo que defendo a ideia de que a saída para romper hegemonia do futebol do Sudeste-Sul do Brasil é a presença de empresas sólidas, transparentes e ricas no controle de clubes do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste.

Por si só, e por mais que se esforcem, não há como Goiás, Bahia, Ceará, Remo, Sport - para citar exemplos aleatórios - encararem o poder de fogo de Grêmio, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Flamengo. Este último, então, está preparado para desgarrar-se muito dos concorrentes. O abismo tende a ser enorme entre estas regiões brasileiras.

Agora, imaginemos gigantes nacionais ou de outros países que descobrissem o potencial esportivo e financeiro que há em administrar com mão firme times como os que citei acima. Há espaço a ser explorado, e não só na bola, mas no turismo, na hotelaria, na publicidade. A mídia também ganharia, com ampliação de mercado.

O eixo de forças não ficaria restrito ao Sul-Sudeste, o "negócio futebol" teria expansão territorial esplêndida, até ligas estaduais poderiam ser revitalizadas. Seria renascimento de muitos clubes que mal têm fôlego para honrar compromissos no fim do mês.

Da mesma maneira, não significaria sufocamento dos grandes clubes. Santos, Atlético-MG, Athletico, Botafogo, Vasco, Fla, Corinthians etc. e etc. não seriam esmagados por concorrência. Ao contrário, cresceriam e igualmente atraíram melhores patrocinadores.

Para essa reviravolta não se limitar a mais uma utopia é preciso que se veja, na prática, a viabilidade do futebol empresa. O Bragantino seria o caminho? Tomara. Torço para que meu ceticismo seja derrubado em pouco tempo.

Se isso ocorrer, todos ganharemos.

Antero Greco