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Antero Greco


Fim de ano do barulho para Sampaoli e Thiago Neves

"Não é errado o técnico desejar novas aventuras; ao contrário. Mas a separação poderia ser amigável" - Ivan Storti/Santos FC
"Não é errado o técnico desejar novas aventuras; ao contrário. Mas a separação poderia ser amigável" Imagem: Ivan Storti/Santos FC
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

13/12/2019 04h00

Durante anos, lá pela década de 50 do século passado, Nelson Rodrigues assinava uma coluna, na "Manchete Esportiva", com a rubrica "Personagem da Semana". O grande cronista e escritor escolhia um jogador, um técnico, às vezes um time, por um fato importante do qual foram protagonistas, e construía textos maravilhosos. Muitos deles estão reunidos no livro "O berro impresso das manchetes", da Editora Agir.

Sem a presunção de me aproximar dos pés da qualidade de um gigante das letras, fosse escolher personagens desta semana, eu ficaria com Jorge Sampaoli e Thiago Neves. E nenhum dos dois por fatos positivos. Quer dizer, o treinador ainda tem uma atenuante; o jogador, nem isso.

Explico.

Sampaoli chama a atenção, no início das movimentações de mercado, por ter pegado o boné e ter limpado o armário no Santos. Ele vinha dando várias pistas de que encerraria atividades na Vila Belmiro, mas no domingo deixou no ar uma brecha para acerto. Tudo dependeria do papo com a direção, no dia seguinte pela manhã.

Veio a segunda-feira e Sampaoli conversou com o presidente José Carlos Peres e outros cartolas. O pouco que vazou do encontro dava conta de que pedira investimentos de ao menos R$ 100 milhões em contratações para 2020. Para ter elenco forte e permanecer.

Soou estranha a exigência. Não é comum treinador estipular cifras para um clube gastar. Ele entrega nomes, diz quais as prioridades e transfere a responsabilidade para quem de direito. Parecia pedida de quem busca motivos para picar a mula.

Não deu outra. A direção em seguida admitiu que o técnico tinha pedido demissão. Versão oficial contestada no dia seguinte pelo técnico em carta aberta ao público. Muito bem escrita, por sinal, em Português elegante. Língua que o argentino faz questão de ignorar.

Pronto, estabeleceu-se o impasse. O Santos diz que libera Sampaoli, se ele e colaboradores pagarem multas previstas em contrato. O "professor" diz que não deve nada.

Ou seja, criou-se clima ruim na saideira. E pergunto: precisava ser assim?

Sampaoli durante a temporada cansou de cutucar a direção alvinegra. Em diversos momentos, parecia que a ruptura viria antes das férias. Mas, seja por questão de contrato, seja porque o time se destacou e jogou bem, ambas as partes se suportavam.

Surgiu perspectiva de o treinador voltar ao país dele ou ficar por aqui, o que poderia explicar o desejo de cair fora do Santos. Negociações não avançaram. Daí, o Palmeiras entra no páreo - e dá-lhe munição para Sampaoli forçar a saída. Até chegar a este ponto.

A experiência de 2019 foi benéfica para Sampaoli, que recuperou prestígio e mercado, e para o Santos, que resgatou auto-estima. Não é errado o técnico desejar novas aventuras; ao contrário, é normal para qualquer profissional tentar saltos. Mas a separação poderia ser amigável. Pegaria bem para todos.

Esquisita também a relação entre Thiago Neves e Cruzeiro. Um tanto sem querer, um tanto porque atraiu holofotes, o meia-atacante transformou-se no símbolo do fiasco do time no Brasileiro, foi a síntese dos erros que desembocaram na queda inédita para a Série B.

Thiago Neves entrou em polêmicas e não se pode dizer que foi por inexperiência. Ao contrário, é bem rodado e sabe como funciona o mundo da bola. Bateu de frente com Rogério Ceni e ganhou a queda de braço. Depois, se desentendeu com Zezé Perrella, durante parte do ano responsável pelo futebol profissional.

Para complicar, perdeu pênalti em jogo decisivo, teve vazado áudio em que pedia pagamento de salários atrasados (no que é direito dele) e foi visto num show (no que não tem nada demais, não fosse por ter ficado fora de uma partida para tratar-se de contusão). Por tudo isso, desgastou-se com o público.

Agora, se dispõe a permanecer no clube para jogar a Segundona. Até com novo contrato, em bases mais baixas. Perrella saiu e o presidente deixa aberta a possibilidade de reconciliação.

Longe de mim rotular pessoas e buscar bodes expiatórios. Mas, na boa, o Cruzeiro fará melhor se deixar Thiago Neves partir para outros desafios. Pode dar vez para jovens da base e a atletas menos renomados, porém com sede de crescer na carreira.

Antero Greco