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Antero Greco


São Paulo na Libertadores: que bom, mas precisa mais

O São Paulo tem ensaiado montar grandes times. Diniz estaria preparado para tanto? - Marcello Zambrana/AGIF
O São Paulo tem ensaiado montar grandes times. Diniz estaria preparado para tanto? Imagem: Marcello Zambrana/AGIF
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

06/12/2019 04h00

Amigo tricolor, imagino que a esta altura do campeonato você deva estar satisfeito com a vaga do time na Libertadores de 2020. Alegria justa; afinal, o São Paulo terá presença na principal competição da América do Sul e da qual é assíduo frequentador - e ganhador.

Mas é pouco. Pouco, se levarmos em conta a grandeza do primeiro clube brasileiro a conquistar o tri da Libertadores e único tri Mundial que temos por aqui. (Não venham os antis com papo de que a Fifa só reconhece a partir dos anos 2000.)

Pouco, pois soa como prêmio de consolação, depois de outro ano frustrante. E este é o ponto central, que há muito incomoda e a respeito do qual alertei em diversas ocasiões.

O Mais Querido há uma década (ou 11 anos, para ser preciso) amarga incomum, para não dizer inédita, seca de conquistas. Depois do tri da Série A, em 2006/07/08 (proeza não igualada), só tem a Sul-Americana de 2012, aquela cuja final nem terminou. Você lembra: o adversário, o Tigre argentino, fugiu de campo, no Morumbi, sob alegação de falta de segurança.

Não desprezo o troféu, de forma alguma, é bonito e enriquece o Memorial. Mas, por ser a estrela solitária nesse período, revela como o São Paulo perdeu o rumo do protagonismo local, nacional e internacional. Antes, era rotina levantar taças de todo tipo, além de ter posição de vanguarda na composição de elencos, na revelação de talentos e na administração.

Esses aspectos de excelência se perderam, ao mesmo tempo em que rivais domésticos, como Palmeiras e Corinthians, se arrumaram e saltaram à frente. Os palestrinos venceram duas Copas do Brasil e dois Brasileiros, os corintianos ganharam de Paulistão a Mundial. O Santos também teve diversas ocasiões para festejar, com Paulista, Copa do Brasil e Libertadores.

Ok, ok, ambos caíram para a Série B (o Corinthians em 2007) e o Palmeiras, de novo (em 2012). Por tal humilhação os são-paulinos nunca passaram (nem os santistas), embora tenham flertado com a zona de rebaixamento em diversos momentos, na história recente. E é comparação que não cabe agora.

A glória, a fama e a fortuna subiram à cabeça dos dirigentes do São Paulo e levaram ao desvio do caminho da virtude. Houve mudanças de estatuto, reeleições, escolha de presidente que teve até de renunciar, trocas constantes na direção do futebol. Por vaidade e política.

A instabilidade se refletiu no futebol profissional, que no fim das contas é o que interessa para a massa. O São Paulo ensaiou formar bons times, e ficou na intenção. Ou porque contratações não deram certo ou porque teve de abrir mão de revelações. Vá lá que nossos clubes são vendedores, não tem muito como escapar. Mas o Tricolor exagerou! E parece depender cada vez mais do caixa feito com a cessão de pratas da casa.

Assim, os times duram muito pouco, da mesma forma que os treinadores. O São Paulo virou triturador de "professores". Se contarmos as dispensas, mais as vezes em que Milton Cruz assumiu como interino, são 31 mudanças! Um absurdo para um gigante. Só neste ano, foram 4 - começou com Jardine, depois Mancini, Cuca e enfim Fernando Diniz.

A falta de convicção no planejamento, na definição da "filosofia de jogo", na paz nos bastidores levou à perda de destaque dentro de campo. Agora mesmo se fala na possibilidade de novas trocas, na direção do futebol e, sabe-se lá, também na Comissão Técnica. E dá-lhe recomeçar tudo do zero. (Admito: tenho dúvidas em relação ao estágio atual de preparo do Diniz para tocar projeto grandioso no São Paulo.)

Resta o que, então? Festa, de jogadores e público, pela conquista de lugar na fase de grupos da Libertadores. Só isso?!

Volto ao ponto inicial deste bate-papo: que bom ver o São Paulo num torneio tradicional. Mas não nos acomodemos nem nos conformemos. A terceira maior torcida do Brasil precisa cobrar da sua cartolagem coerência, transparência, modernidade e ousadia. Profissionalismo.

Basta de o São Paulo ser coadjuvante. O lugar dele é de personagem principal. Quem sabe a volta do parafuso não ocorra em 2020. Fico na esperança, sem graaaaande entusiasmo.

Antero Greco