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Antero Greco


Flamengo, Balotelli e a próxima atração

Mario Balotelli quando atuava no Nice - Eric Gaillard/Reuters
Mario Balotelli quando atuava no Nice Imagem: Eric Gaillard/Reuters
Antero Greco

Antero Greco é paulistano do Bom Retiro, jornalista desde 74. Trabalhou no Grupo Estado, Diário Popular, TV Gazeta, Corriere Dello Sport (Roma), além de colaborações para Folha e TV Band. Entrou na ESPN em 94. Cobriu 11 Copas (7 no local).

16/08/2019 04h00

A tentativa do Flamengo de contratar Mario Balotelli deu o que falar. No início, torcedores rubro-negros se animaram com a perspectiva de ver no elenco personagem famoso (e controvertido) pela técnica e pelas polêmicas. No desfecho, rivais se fartaram em gozações porque a transação gorou, e o italiano preferiu ficar em casa ao optar (bem provável) pelo pequeno Brescia, na região em que cresceu.

Os enviados especiais voltam da Itália com mãos vazias; porém, por dez dias, o Fla esteve na boca do mundo pelo interesse no Balotelli. Vá lá que ele não está no nível de Messi, Cristiano e outros astros de igual importância. No momento, não é nem um Salah, Lukaku, Suarez, Neymar; enfim, não compõe o bloco de atletas de alto quilate e que chamam a atenção de treinadores, investidores e plateias.

Em bom português, Balotelli hoje não é destaque na Europa. Não tem espaço generoso, como em começo de carreira, quando apareceu como a maior revelação italiana depois de muitos anos de monotonia. Foi a época em que Milan, Inter e gigantes do gênero o cobiçavam. A turma do lado de lá do Atlântico cansou da instabilidade do moço, que passou a ter mercado periférico e foi relegado pela "Squadra Azzurra".

Quer dizer que seria uma roubada o Flamengo trazê-lo? Risco de fiasco existia, só com tremenda ingenuidade para achar o contrário. Mas não cravaria como inevitável uma perda total de investimento. Na pior das hipóteses, ao menos por um tempo o atacante funcionaria como chamariz para jogos da equipe. Pois seria o "diferente", o que sai da rotina.

Claro que o público tem, no momento, motivos de sobra para ir ao estádio - e aí estão Rafinha, Filipe Luis, Arrascaeta, Gabigol, Gerson etc que não me deixam mentir. Mas com o "Supermário" haveria, no mínimo, curiosidade para ver o que faria em campo. Ou o que aprontaria, de tão imprevisível que é. Capaz de mesclar um drible estonteante, com um gol espetacular e uma presepada seguida de cartão vermelho. Balotelli é uma incógnita.

Deixemos de lado que tipo de contribuição técnica e tática Balotelli poderia trazer ao Flamengo. Esse papo que não sairá jamais do terreno especulativo. Ele não vem e ponto!

O rebuliço que houve em torno dele vir pra cá escancarou o óbvio: o torcedor deseja atrativos que o seduzam a consumir futebol. O fã está sempre atrás de uma novidade, seja para ver o clube brigar por títulos, seja para gabar-se diante dos adversários, na base do "olhe como somos poderosos e contamos com o que há de melhor."

Os europeus descobriram essa fórmula há muito tempo. Na origem, iam atrás de estrangeiros porque lhes faltava talento - o que sobrava aqui, na Argentina, no Uruguai, por exemplo. Então, se limitavam ao ganho esportivo. Milan, Inter, Barça e Real são tradicionais importadores.

Depois, detectaram potencial para atingir público maior com jogadores de diversas nacionalidades. Notaram que era bom ter asiáticos, africanos e muitos latino-americanos, para expandir marca e mercado. Hoje os europeus são populares na China, no Japão, na Nova Zelândia, na África do Sul e por aí afora.

É preciso expandir o negócio multinacional da bola. Daí a busca incessante pela próxima atração. Não é à toa que os preços de passes sobem e sobem e sobem... E tem maluco que paga.

Não seria diferente no Brasil. Lembram quando Seedorf veio encerrar carreira por aqui? Por onde andou com o Botafogo as pessoas queriam vê-lo. O Corinthians fez sucesso com Tevez. Ou mesmo o retorno de brasileiros que correram mundo dá frisson nas arquibancadas. Foi assim com Ronaldinho Gaúcho, com Ronaldo Fenômeno, com Robinho, agora com Daniel Alves.

Os clubes daqui precisam ter em mente que grandes nomes atraem foco. Claro que não têm chance de competir com gigantes europeus; por isso, acolhem filhos pródigos (como os que citei acima) ou um ou outro gringo sem mercado. Mesmo assim, já é alguma coisa em direção à indústria do entretenimento da qual o futebol faz parte.

Quem sabe, no futuro, não poderão ter pretensões mais atrevidas como a de ter um craque badalado, e internacionalmente famoso, no auge da carreira? Sonhar não custa. Por isso, não detono a tentativa - frustrada, é verdade - que o Flamengo fez por Balotelli.

Mas que ele iria causar por estas bandas, iria. Para o bem e para o mal...

Antero Greco